'A gente aprende a lidar com a vida e a morte': enfermeiras relatam momentos que marcaram a profissão no interior de SP

  • 12/05/2026
(Foto: Reprodução)
Larissa Esteves (à esquerda) e Mariele Cancian (à direita) relatam trajetórias Arquivo pessoal/Cedidas Cuidado, escuta, apoio, “tocar o ser humano com respeito, dignidade, empatia, ciência e paixão pelo cuidar”. Esses são termos que resumem o que é ser enfermeira, segundo duas profissionais de Presidente Prudente (SP). Nesta terça-feira (12), data que se celebra a profissão, o g1 compartilha histórias, dificuldades e superações de desafios, inclusive, pessoais. Acostumada a cuidar de pacientes à beira do leito, a enfermeira Larissa Sapucaia Ferreira Esteves viu a própria vida mudar após receber o diagnóstico de câncer de tireoide. A experiência como paciente transformou a forma como ela enxerga o cuidado e a profissão. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp “Pensa num trem difícil! Embora todo mundo fale que é um tipo de câncer mais manso, o tal diagnóstico mexe muito com a gente, sabe?! Eu perguntei para o meu médico claramente: ‘Eu não vou morrer disso, né?’ e ele me respondeu: ‘provavelmente não!’”, conta em entrevista ao g1. Diante do diagnóstico, Larissa, que também é coordenadora do curso de Enfermagem na Unoeste, conta que decidiu viver e aprender tudo o que Deus queria lhe ensinar. Ela lembra que recebeu cuidados de todos os lados e de pessoas que nem imaginava. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Vídeos em alta no g1 “Acabei saindo com uma sequela transitória, uma disfonia (eu já era bem rouca), que fez com que eu não pudesse dar mais aula agora... Mas isso vai passar e, decerto, tenho muito a aprender com esse silêncio”, conta. Enquanto enfermeira, a profissional relata que é muito comum pensar que a pessoa dependente de cuidados deve ou pode fazer determinadas coisas, como se levantar para tomar banho, comer, pentear os cabelos e até ficar mais animada. Porém, estando do outro lado, ela entendeu que o processo do adoecimento é muito singular. “Ficar com um dreno por cinco dias parece não ser nada demais... Mas quem vai saber como é, será apenas a pessoa dona do dreno! Entendi que existe um tempo para tudo, e ele precisa ser acolhido e respeitado, e que as coisas não serão no meu tempo, enquanto enfermeira saudável na beira do leito, e sim no processo de cada um que precisa ser plenamente considerado”, afirma “Mas acordar depois de uma cirurgia, mesmo que não seja tão complexa, é sensacional! É a certeza de que Deus está te dando mais dias de vida para viver plenamente o nosso propósito”, continua. Larissa Esteves é enfermeira e doutora em ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Larissa Esteves/Arquivo pessoal Rede de apoio Mesmo durante o tratamento, Larissa continuou muito ativa e conta que sua força veio de toda uma rede de apoio. “Deixei bem claro para os alunos e professores o processo que estava vivendo e disse ainda que se não estivesse bem, iria dividir com eles, porque provavelmente não conseguiria fazer meu papel. Dessa forma, cada encontro se tornou uma bazuca de boas energias... Eu conseguia ver claramente nos olhos de cada um que trabalha comigo a torcida para que tudo desse certo”, lembra ao g1. Com os familiares e amigos também não foi diferente. Larissa afirma que o fato de decidir falar claramente sobre o câncer e o processo que estava por vir, embora não tivesse a dimensão do todo, fez “brotar energia” em cada abraço, em cada encontro, em cada mensagem. “Um amigo até me falou: ‘para de se fazer de forte!’ Oxe, eu não estava me fazendo, eu estava recebendo muita força”, compartilha. “É claro que senti muito medo. Medo de ficar dependente de cuidados, medo de não ver mais os meus, medo de não conseguir mais viver minha família, meus amigos e minha profissão... A única coisa que eu tinha clareza era que não tinha nenhum controle ou governabilidade sobre tudo isso... Que a entrega seria o caminho mais sensato”, relata. Diante disso, ela conta que precisou ir para o pronto-socorro no pós-operatório tardio devido a uma crise de pânico e, mais uma vez, foi carregada pelo marido, filha, familiares, amigos e ex-alunos que ao receberem-na na triagem, a enchiam de cuidado. LEIA TAMBÉM: Presidente Prudente amplia vacinação contra dengue; veja quem pode receber a dose Após abortos espontâneos e gestações de alto risco, mãe atípica do interior de SP vence trombofilia: 'Um milagre' Mãe enfrenta batalha contra câncer e lúpus enquanto cuida de três filhos no interior de SP: ‘São a minha cura todos os dias’ Missão de vida Doutora em ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Larissa se descreve como católica, apostólica, romana, “roxa”, de família tradicional, esposa casada há 25 anos, mãe de uma linda garota de 18 anos, filha do meio e, segundo sua minha mãe, a mais arteira. “Eu amo viver! Amo a minha vida! Isso me define, mesmo com todos os percalços, tropeços, alegrias, descobertas, experiências boas e difíceis! Cada coisinha que eu vivo me traz a sensação de ser muito amada por Deus, que nesses meus 45 anos, tem cuidado de cada detalhezinho com muito amor e carinho”. Esteves ingressou na faculdade aos 18 anos. Ela prestou vestibular para Farmácia, mas no dia da matrícula pediu transferência para Fisioterapia. “Mas o meu coração falava, latejava, pelos cuidados com as pessoas e no primeiro dia de aula fui lá e me transferi para Enfermagem. Mal sabia eu que seria a minha missão de vida”, afirma ao g1. A profissional sempre fala que decidir uma profissão aos 18 anos não é tarefa fácil, até por questões de maturidade e experiência de vida para compreender com clareza o cerne de cada profissão. No entanto, ela declara que tinha a clareza de que queria cuidar das pessoas nas situações difíceis que a vida traria para elas. “A única coisa que vinha no meu coração era à beira de um leito! E essa ‘imagem’ se materializou na profissão da minha vida!”, diz. Larissa conta ao g1 que confirmou que nasceu para exercer a enfermagem durante os estudos, especificamente durante o estágio em uma enfermaria “bem cheia de pessoas internadas”. “Uma senhora bem idosa havia amputado o membro inferior. A minha professora, que estimo muito, me disse: ‘Larissa, vai lá e começa a fazer o curativo. Eu já chego para te orientar!’. Pois bem, aquela senhora sentia dor no membro amputado, a tal dor fantasma, e eu não sabia o que fazer para cuidar dela para além da técnica do curativo, e eu perguntei: ‘O que eu posso fazer para te ajudar com essa dor?’ A única coisa que me veio à cabeça foi dar uma dipirona! E ela me respondeu: ‘Filha, só faz com carinho que a dor vai passar!!!’”, lembra. Após o ocorrido, a profissional relata que saiu do curativo aos prantos de emoção. “Minha professora pegou na minha mão, me deixou chorar tudo que eu queria (estava cuidando de mim) e falou: ‘agora vai lá e agradece tudo que você aprendeu com ela!’ Pronto, naquele dia entendi que esse era exatamente o meu lugar!”, continua. Larissa Esteves em visita ao Museu Florence Nightingale, em Londres, localizado no St Thomas' Hospital; é uma homenagem à fundadora da enfermagem moderna Larissa Esteves/Arquivo pessoal O que é cuidar de alguém? “Cuidar de alguém é para mim algo que sai desse plano, sabe? A impressão que eu tenho é que estou numa missão que me foi dada com muitas recomendações, porque cada pessoa que eu cuido é um filho amado de Deus e eu preciso fazer com muito respeito, ciência, empatia e amor”, descreve Larissa Esteves. Ela afirma que é engraçado o fato de que tudo ao seu redor é cuidado: a formação acadêmica de cerca de mais de 300 estudantes e sua participação ativa em cada detalhe da formação. “Nesse contexto de formação há os professores que trabalham comigo, que são extremamente talentosos e que compartilham com esses meninos muito mais do que saberes ‘enfermáticos’. Eles escutam, direcionam, cuidam e são cuidados por eles”. Larissa acrescenta que atua como estomaterapeuta, profissional que cuida de feridas de difícil manejo, estomas - “colostomias” - e incontinências urinária e fecal, e o toque, a análise do tecido da ferida, as histórias de vida. “O pensamento clínico para decidir junto com a pessoa a melhor conduta me traz uma energia que funciona como um grande combustível. Saio de cada atendimento sentindo que aprendi muito mais com a vida deles, do que eles comigo, e isso não é cuidado?”, relata. Ela também vive com uma turma de residência multiprofissional que atua com pessoas idosas e estar com outras profissões, para ela, é surreal. Porque, para Larissa, quando se compartilha conhecimento, estudam juntos, discutem condutas e decidem o cuidado, isso se multiplica dentro de cada um. “A relação interdisciplinar tem essa potência: cuidar do outro através das trocas de saberes. E como fazemos isso focados na pessoa idosa, o olhar para essa população nos faz dar valor a cada momento vivido, porque é único e nunca mais vai voltar! Me fala se isso não é cuidado?!”, destaca. Experiências Com sua experiência, seja como quem é cuidada ou quem cuida, Larissa conta que aprendeu que cada um sabe onde o sapato aperta. “Por mais que me esforce, é impossível conseguir sentir exatamente o que a pessoa sente, e que o mínimo que eu preciso fazer enquanto enfermeira é acolher a vida e história do outro, cuidar com responsabilidade garantindo o melhor que a ciência pode nos trazer... Afinal, quem somos nós diante da grandeza e dos mistérios da vida?” Para os futuros profissionais da área, a profissional espera ensinar que a enfermagem é do tamanho que cada um conseguir enxergar. “A profissão, embora muito difícil, precisa fazer e trazer um sentido para a vida de cada um, e cada um de nós pode ser a mudança que queremos ver no mundo”. Ser enfermeira para Larissa “é tocar o ser humano com respeito, dignidade, empatia, ciência e paixão pelo cuidar”. Mariele Cancian conta rotina corrida para se aperfeiçoar na profissão Arquivo pessoal/Mariele Cancian Cuidar do amor do outro como se fosse o seu Outra profissional apaixonada pelo “cuidar” é Mariele Aparecida Cancian Rizzo. Natural do interior de Ribeirão dos Índios (SP), ela cresceu ao lado da mãe, Wilmali Cancian, uma mulher descrita por ela como “forte e que sempre trabalhou como cozinheira em uma escola do município”. “Foi com ela que aprendi o valor do esforço, da humildade e da dedicação. Meu pai, Laércio, é pedreiro, e mesmo com a rotina difícil, sempre foi uma presença importante na minha vida”, lembra ao g1. Desde cedo, Mariele sabia que queria buscar algo maior. Desta forma, ao completar 18 anos, saiu de Ribeirão dos Índios rumo a Presidente Prudente para estudar o curso técnico de Enfermagem. “Foi um passo grande, cheio de desafios, mas também de sonhos. Me formei pelo Colégio Criarte e ali comecei a entender que estava no caminho certo”, conta. A vontade de cuidar das pessoas se intensificou quando uma tia de Mariele enfrentou um câncer e ela a acompanhou ao hospital para fazer tratamentos, exames e outros procedimentos. “Mas desde criança minha mãe fala que eu afirmava que gostaria de trabalhar com mulher grávida quando crescer”. A enfermeira conta que durante o curso teve o apoio fundamental da professora Daniela Primolan. Segundo ela, a docente enxergou nela um potencial que, muitas vezes, ela mesma não conseguia ver. “Foi ela quem me incentivou, me orientou e me ajudou a dar os primeiros passos na área profissional. Com sua ajuda, consegui uma oportunidade de trabalhar no Hospital Regional, na área da obstetrícia, e foi ali que eu me encontrei de verdade”, relata. LEIA TAMBÉM: Artista plástico do interior de SP celebra 50 anos de carreira e analisa impacto da IA na arte: 'Falta alma' Do Oeste Paulista para o mundo: ator de ‘Avenida Brasil’ relembra trajetória, soma prêmios e conta planos para o futuro Serjão em ‘Avenida Brasil’, Vicentini Gomez lembra convite para a novela e conta bastidores de gravações Na ocasião, Mariele trabalhou como auxiliar de enfermagem no setor e “foi transformador”. “Cuidar de mães, acompanhar nascimentos e fazer parte de momentos tão únicos na vida das pessoas me mostrou que eu estava exatamente onde deveria estar”, afirma. “Mas eu queria mais. Enquanto trabalhava, busquei continuar meus estudos e iniciei a faculdade de Enfermagem na universidade Uniesp, em Presidente Prudente. Mesmo com a rotina puxada entre trabalho e estudos, nunca desisti”, afirma. Pouco antes de se formar, surgiu uma oportunidade de crescimento dentro do HR. Então, fez uma prova interna e conquistou uma promoção para o setor onde já atuava. Foi mais um passo importante na caminhada. Com apoio e incentivos, Mariele continuou se especializando e iniciou a pós-graduação em Obstetrícia na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste). “Foi um período intenso, de muito aprendizado e dedicação, mas que valeu cada esforço”, destaca. Ao concluir a pós-graduação, ela conquistou uma promoção ao cargo de enfermeira obstetra no Hospital Regional, onde atua atualmente, fazendo o que ama e realizando o sonho que começou lá atrás, ao lado da mãe. “Minha história é feita de luta, apoio e oportunidades abraçadas com coragem. E cada conquista carrega um pouco de tudo aquilo que vivi até aqui”, diz. A enfermeira conta que nunca foi fácil a locomoção, sair do serviço, não ter ônibus para ir à faculdade, morar longe. Ela saía de casa às 5h30 e voltava a 0h. “Mas Deus coloca anjos na nossa vida. Graças a Deus eu conheci uma amiga que foi muito importante para mim. Ela se chama Izaura, me buscava no HR e me deixava na faculdade. Ela fez isso durante cinco anos sem pedir nada em troca, foi um gesto magnífico e de muito amor e compaixão”, lembra. No entanto, a jornada de Mariele não é marcada somente por desafios. Ela também soma inúmeros bons momentos e lembranças. “Teve uma [história] que foi muito linda! Uma mulher que tentou engravidar por oito anos e não conseguiu; quando ela fez 46 anos, descobriu que estava grávida do primeiro filho. Foi lindo e emocionante”, conta Mariele, que participou do parto, recepcionou o bebê e prestou os primeiros cuidados. “Ser enfermeira é um ato de cuidado, amor incondicional, acolhimento, escuta e apoio. É poder cuidar do amor do outro como se fosse o seu”, finaliza. Initial plugin text Veja mais notícias em g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/05/12/a-gente-aprende-a-lidar-com-a-vida-e-a-morte-enfermeiras-relatam-momentos-que-marcaram-a-profissao-no-interior-de-sp.ghtml


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