'Dá uma clorada mais forte': áudios revelam orientações de dono a funcionário de academia em que professora morreu
18/02/2026
(Foto: Reprodução) Áudios revelam orientações de dono de academia a funcionário
O manobrista que fazia a manutenção da piscina da academia em que uma mulher morreu após uma aula de natação, na Zona Leste de São Paulo, recebia orientações por meio de aplicativo de mensagem sobre como limpar a água do local.
"Nossa, eu olhei pela câmera e ela tá horrível. Eu tô achando que tá sem cloro. Mede ela a hora em que você for lá que, se bobear, a gente joga até um pouco mais. Eu deixei cinco medidas, mas vamos medir pra ver", disse o empresário, identificado como Celso Bertolo, em um dos áudios aos quais a reportagem do Fantástico teve acesso.
O manobrista, Severino José da Silva, de 43 anos, não tinha nenhum tipo de especialização para manusear a limpeza da piscina, afirmou a defesa do trabalhador.
"Ele não tem conhecimento técnico para manusear piscina ou qualquer manutenção que seja. Todos os dias, pela manhã, ele fazia a medição da água e enviava uma foto do medidor por aplicativo de mensagem pro proprietário, o Celso. A partir disso encaminhava os produtos e quantidades pra usar", disse a advogada Bárbara Bonvicini, responsável pela defesa de Severino.
Nos áudios entre patrão e funcionário, é possível ouvir Celso orientando Severino a usar mais cloro na água.
"Mano, a piscina tá cada vez ficando mais feia. Certeza que é falta de cloro", disse Celso.
"Hoje, a hora em que você for, a gente mede e dá uma clorada mais forte pra amanhã estar bonita", comentou o empresário em outro áudio encaminhado ao funcionário.
Áudios mostram as orientações de empresário para manobrista que cuidava de piscina
Reprodução
De acordo com a investigação, a morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, foi causada pela mistura incorreta de produtos usados no tratamento da piscina, que levou à liberação de gás cloro, uma substância altamente tóxica e perigosa quando manipulada sem técnica ou proteção adequada.
No Fantástico do último domingo (15), especialistas do Instituto de Química da USP mostraram, por meio de experimentos controlados, como a combinação dos produtos usados em piscinas pode gerar o gás perigoso.
Os produtos envolvidos são:
Hipoclorito de cálcio, utilizado como desinfetante;
Dicloro isocianurato, outro agente de cloração com função semelhante;
Um ácido usado para regular o pH da água.
Quando qualquer um desses agentes de cloro entra em contato com um ácido — seja o regulador de pH ou outro produto ácido usado para limpeza — ocorre uma reação que libera um gás amarelo-esverdeado: o cloro gasoso.
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Por que o gás cloro é tão perigoso
O cloro gasoso, quando inalado, reage imediatamente com a água presente nas mucosas do corpo — nariz, garganta, boca e pulmões. Essa reação produz substâncias extremamente irritantes, semelhantes ao efeito de inalar água sanitária pura.
Segundo a explicação do professor Reinaldo Bazito:
provoca irritação profunda nas vias aéreas,
causa sensação de queimação,
pode levar a edema pulmonar,
e, em alta concentração, pode ser fatal.
Os especialistas deixam claro que, embora pequenas imprecisões sejam toleradas no tratamento de uma piscina, um erro grave como esse pode gerar consequências fatais.
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Como o erro teria acontecido na academia
A investigação também revelou que o responsável pelo tratamento da piscina não era um profissional qualificado, mas o manobrista da academia. ele recebia instruções do proprietário à distância, por mensagens, sem técnica e “no olhômetro”.
Além disso, não havia controle formal das medições de pH e cloro, como exige a legislação, o que pode ter levado à mistura, em um balde, de produtos incompatíveis ou em quantidades completamente inadequadas — exatamente o tipo de erro que, segundo os especialistas, gera uma liberação repentina e volumosa de gás cloro.
O resultado da reação
Testemunhas relataram que o balde próximo à borda da piscina começou a soltar uma fumaça amarelada e irritante — o mesmo aspecto observado nos experimentos químicos. Momentos depois, nadadores começaram a sentir:
ardência nos olhos,
queimação na garganta,
falta de ar,
e sufocamento.
A rápida propagação do gás dentro do ambiente fechado da piscina deixou frequentadores em pânico e resultou na intoxicação grave de várias pessoas — entre elas Juliana Bassetto, que não resistiu.
Consequências e investigação
Os três sócios da academia — Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração — não quiseram dar entrevista. Em nota, os advogados afirmam que os clientes permanecem inteiramente à disposição das autoridades, confiando que a investigação prosseguirá de forma técnica, isenta e em estrita observância às garantias constitucionais.
Na sexta-feira, a Justiça negou a prisão temporária dos empresários, que havia sido pedida pela Polícia Civil.
A polícia investiga o caso sob a perspectiva de negligência e exposição de frequentadores a gases tóxicos.
"A legislação prevê que eles têm que ter um registro, com anotação, disponível para qualquer cliente, consumidor, aluno, com as medições do nível de pH, do nível de cloro, do nível de acidez da água, isso não existe. Eles assumiram completamente o risco de de expor as pessoas ao contato com gases tóxicos e o resultado, infelizmente, foi a morte da Juliana", diz o delegado Alexandre Bento.
O jovem de 14 anos, que também estava na piscina e chegou a ser internado em estado grave, teve alta na sexta. E o Vinícius, o marido A Juliana saiu da UTI e do hospital neste domingo (15).
Veja detalhes da investigação do caso da intoxicação na piscina da academia que provocou a morte de uma mulher
Reprodução/TV Globo
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