Dia do Bibliotecário: profissionais explicam como funciona a carreira e os desafios com as novas tecnologias: 'Muito mais do que organizar livros'
12/03/2026
(Foto: Reprodução) Dia do Bibliotecário: profissionais explicam como funciona a carreira e os novos desafios
“Uma jovem senhora séria, que usa óculos, interage pouco com os frequentadores das bibliotecas e prefere um ambiente de silêncio absoluto.” É assim que Daniela Pereira dos Reis, coordenadora do curso de Biblioteconomia da Unesp de Marília (SP), diz ouvir há anos comentários sobre a profissão.
Apesar de ser o estereótipo mais comum associado à área, a imagem pode estar distante da realidade atual do trabalho do bibliotecário.
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Nesta quinta-feira (12), é celebrado o Dia Nacional do Bibliotecário. (Saiba mais ao final da reportagem). A data marca uma profissão tradicionalmente ligada às bibliotecas, mas cuja atuação hoje se estende a diferentes áreas e ambientes, inclusive digitais.
Trabalho de bibliotecário vai muito além das tradicionais bibliotecas
Crystofher Andrade/g1
'Onde há informação, há espaço para o bibliotecário'
Bibliotecário --- ou biblioteconomista, termo usado para quem é formado em Biblioteconomia --- é o profissional especializado em organizar, preservar e facilitar o acesso à informação.
Uma das universidades públicas que oferecem o curso gratuitamente no país é a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, cuja graduação completa 50 anos em 2026.
Aula de Biblioteconomia na Unesp de Marília (SP)
Unesp/Reprodução
Formada em Biblioteconomia pela instituição em 1997 e hoje coordenadora do curso, Daniela Pereira dos Reis afirma que acompanhou diversas mudanças na profissão ao longo dos últimos 30 anos e que a atuação do bibliotecário vai muito além das bibliotecas, abrangendo museus, arquivos de instituições públicas e privadas e a organização de acervos físicos e digitais.
"Além de materiais bibliográficos, como livros e revistas, o bibliotecário também pode atuar na organização de imagens, como fotografias e vídeos, de diferentes tipos de objetos classificados por assuntos, inclusive no ambiente digital. Onde existe informação que precisa ser organizada, há espaço para a atuação desse profissional", explicou a professora em entrevista ao g1.
Daniela Pereira dos Reis é coordenadora do curso de Biblioteconomia pela Unesp de Marília
Arquivo Pessoal
De acordo com a coordenadora, o curso prepara os estudantes para lidar com diversos formatos de informação e ambientes de trabalho ao longo de oito semestres, com disciplinas teóricas, práticas, de pesquisa e extensão.
"Eles estudam desde os conceitos teóricos da área até disciplinas mais aplicadas, como catalogação, metadados de objetos digitais, gestão de coleções e planejamento de unidades de informação", explica.
Com o avanço da tecnologia, novas áreas também passaram a integrar o campo de atuação da profissão.
A professora Rachel Cristina Vesu Alves, vice-coordenadora do curso, afirma que hoje os profissionais trabalham com gestão de dados de pesquisa, curadoria de acervos digitais, organização de repositórios institucionais e preservação de informações em diferentes formatos.
"O profissional precisa acompanhar as mudanças tecnológicas e atuar na democratização do acesso à informação. A gestão de acervos digitais, a preservação de dados, a curadoria digital e o uso de tecnologias como Big Data e inteligência artificial já fazem parte do campo de atuação", explica.
Novas gerações de estudantes de biblioteconomia precisam lidar com os avanços da tecnologia
Daniela Pereira dos Reis/Arquivo Pessoal
Temas como web semântica, linked data e Inteligência Artificial (IA) também fazem parte das discussões atuais da área e ampliam as possibilidades de atuação em empresas, centros de pesquisa e organizações públicas.
Segundo Daniela, o próprio curso foi se adaptando ao longo das décadas para acompanhar essas transformações.
"No início, o curso estava voltado para formar bibliotecários para atuar em bibliotecas universitárias. Com a evolução dos suportes de registro da informação, essa área foi se ampliando", explica.
Unesp de Marília forma profissionais de Biblioteconomia há 50 anos
Arquivo Pessoal
Profissão em alta
A expansão das áreas de atuação também tem refletido nas perspectivas de crescimento da carreira. Em 2025, uma pesquisa encomendada pelo LinkedIn apontou o bibliotecário como a 10ª profissão com maior tendência de crescimento no Brasil.
Os profissionais atuam principalmente nos setores de educação e tecnologia, e as cidades com o maior número de contratações são São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
Fachada da biblioteca da Unesp Marília
Divulgação
O levantamento indica ainda que a profissão predominância feminina na área: em 2024, 76,36% das contratações foram de mulheres, contra 23,64% de homens. Em média, os profissionais levam cerca de 4,4 anos de experiência até assumir o cargo.
Entre os exemplos está Flávia Maria Bastos, atual coordenadora-geral das bibliotecas da Unesp. Ex-aluna do curso de Biblioteconomia da universidade, ela construiu a carreira dentro das bibliotecas da instituição até assumir a coordenação do sistema que reúne todas as unidades.
Para ela, a profissão passou por mudanças significativas nas últimas décadas.
"O trabalho do bibliotecário hoje envolve muito mais do que organizar livros. Nós lidamos com diferentes tipos de informação e com novos ambientes digitais que exigem organização, preservação e acesso", afirma.
Flávia Maria Bastos é atual coordenadora geral das bibliotecas da Unesp
Fabio Mazzitelli/Unesp
Flávia também destaca o papel social das bibliotecas e dos profissionais da área.
"As bibliotecas são espaços de acesso ao conhecimento e de formação de cidadãos. O bibliotecário tem um papel importante em garantir que a informação esteja disponível e organizada para toda a população", diz.
Flávia Maria Bastos acompanhou a evolução das bibliotecas após se formar em Biblioteconomia pela Unesp de Marília (SP)
Arquivo pessoal
Dia do Bibliotecário
O Dia do Bibliotecário é celebrado no Brasil em 12 de março, em homenagem ao nascimento de Manuel Bastos Tigre (1882–1957), considerado o primeiro bibliotecário concursado do país.
Manuel Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do país
Reprodução
Engenheiro, poeta, publicitário e bibliotecário, Manuel Bastos Tigre prestou concurso em 1915 para o cargo de bibliotecário do Museu Nacional, apresentando uma tese sobre a Classificação Decimal.
No mesmo ano, foi aprovado para atuar na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, onde contribuiu para a organização e modernização dos serviços da instituição.
Ao longo da carreira, exerceu a profissão de bibliotecário por cerca de quatro décadas, sendo reconhecido como o primeiro profissional da área aprovado por concurso público no país.
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
Reprodução
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