Estudo busca entender o que atrai 'vida invisível' aos parques urbanos
22/04/2026
(Foto: Reprodução) Não é a mata fechada: estudo revela o que atrai vida 'invisível' aos parques urbanos
Em meio ao concreto, ao barulho e à rotina acelerada das cidades, uma vida silenciosa resiste – e mais do que isso, desempenha funções essenciais para o equilíbrio ambiental. Um estudo realizado em seis parques urbanos de São Carlos (SP) revela que a presença de insetos como abelhas, formigas e vespas não depende apenas da existência de áreas de mata fechada, como muitos ainda imaginam.
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O segredo está em outro lugar: na forma como esses espaços são estruturados, manejados e conectados.
Levantamento analisou a fauna de insetos da ordem Hymenoptera – grupo que inclui abelhas, vespas e formigas
Bárbara Ibelli
“Mais do que a quantidade de vegetação, o que realmente determina a presença desses insetos é a heterogeneidade ambiental, ou seja, a diversidade de condições dentro do próprio parque”, explica a bióloga, mestre em ecologia e doutoranda Bárbara Ibelli Victorino, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN) da UFSCar, campus São Carlos.
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Estudo realizado em seis parques urbanos de São Carlos (SP) revela que presença de insetos não depende apenas da existência de áreas de mata fechada
Bárbara Ibelli
Biodiversidade também se constrói
O levantamento analisou a fauna de insetos da ordem Hymenoptera – grupo que inclui abelhas, vespas e formigas – e identificou mais de 62 mil indivíduos, distribuídos em 14 superfamílias. Para se ter uma ideia, esse número é considerado alto: no Brasil, são conhecidas cerca de 15 a 20 superfamílias desse grupo.
Entre elas, algumas chamam atenção pela importância ecológica e também pela raridade em ambientes urbanos, como Ceraphronoidea, Proctotrupoidea e Trigonaloidea, vespas parasitoides que atuam no controle biológico de outros insetos.
Superfamília Formicoidea
Bárbara Ibelli
“Esses grupos ajudam a regular populações naturalmente, evitando desequilíbrios. E a presença deles indica que esses ambientes conseguem sustentar relações ecológicas mais complexas”, afirma Bárbara.
Além do controle biológico, esses insetos também participam da polinização, da ciclagem de matéria orgânica e da manutenção da saúde dos ecossistemas urbanos.
Um parque urbano que surpreendeu
Entre os seis parques analisados, um caso chamou atenção: o Parque Florestal Urbano Bosque Santa Marta, localizado em uma área densamente urbanizada, apresentou a maior abundância de insetos, inclusive de espécies bioindicadoras de boa qualidade ambiental.
O resultado pode parecer contraditório à primeira vista, mas ajuda a reforçar o principal achado do estudo.
Os Braconidae são uma família de vespas parasitoides
Bárbara Ibelli
“O que esse caso mostra é que, mesmo em áreas muito urbanizadas, é possível manter comunidades ricas de insetos. O histórico de reflorestamento, o manejo e o cuidado da comunidade fazem toda a diferença”, explica a pesquisadora.
O parque foi reflorestado há anos com participação da população local e segue sendo cuidado por quem vive no entorno. Além disso, a conexão com outras áreas verdes próximas também contribui para essa riqueza de espécies.
Como a pesquisa foi feita
Para entender como esses insetos se distribuem na cidade, os pesquisadores instalaram armadilhas do tipo Malaise nos seis parques estudados. As coletas foram realizadas em dois períodos ao longo de dois anos, permitindo comparar os dados ao longo do tempo.
Todo o material coletado foi levado para laboratório, onde os insetos foram triados, quantificados e identificados até o nível de superfamília, com apoio de instituições especializadas.
A armadilha Malaise é uma estrutura em forma de tenda, feita de tela, projetada para capturar insetos voadores
Bárbara Ibelli
“A gente trabalhou com um volume muito grande de indivíduos. O objetivo era fazer um panorama geral e entender como essas comunidades se organizam em áreas urbanas”, explica Bárbara.
A pesquisa foi desenvolvida sob orientação da Profa. Dra. Angélica Maria Penteado Martins Dias, com apoio do CNPq e da FAPESP.
Nem toda árvore ajuda
Outro ponto importante levantado pelas pesquisas está no planejamento urbano. Um estudo complementar analisou as árvores plantadas na cidade e sua relação com a presença de abelhas.
O resultado mostrou que nem todas as espécies utilizadas favorecem os polinizadores. Algumas podem até afastá-los.
Resultado mostrou que nem todas as espécies de árvores utilizadas favorecem os polinizadores
Bárbara Ibelli
Ainda assim, mesmo em áreas bastante urbanizadas, foram registradas diversas abelhas nativas, reforçando a capacidade de adaptação desses insetos, desde que encontrem condições mínimas para sobreviver.
O papel das cidades
Os resultados indicam caminhos práticos para o futuro das áreas verdes urbanas. Mais do que plantar árvores ou manter fragmentos de mata, é preciso pensar em manejo, diversidade de ambientes e conexão entre áreas.
“O uso desses dados em planos de conservação pode ajudar a garantir que esses espaços sejam mantidos e manejados de forma adequada, sem perda de área e de recursos”, destaca a pesquisadora.
Os Ichneumonidae, também conhecidos como vespas icneumonídeas, são uma família de vespas parasitoides da ordem Hymenoptera
Bárbara Ibelli
Parcerias entre poder público e comunidades locais também aparecem como peça-chave, especialmente quando envolvem educação ambiental e cuidado contínuo desses espaços.
No fim das contas, a pesquisa reforça uma ideia simples, mas poderosa: a biodiversidade nas cidades não é apenas uma questão de preservar o que resta, mas de construir, cuidar e conectar.
E, muitas vezes, ela está ali, invisível, trabalhando todos os dias para manter o equilíbrio da vida urbana.
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