‘Foi um choque. A gente recebe a notícia com nojo’, diz tripulante que trabalhou com piloto de Guararema preso por abuso sexual infantil
10/02/2026
(Foto: Reprodução) Polícia Civil realiza busca e apreensão em Guararema
“Foi um choque. Você não imagina que isso possa acontecer, por ser um senhor e também por aparentar ser uma pessoa calma e tranquila. E aí a gente recebe a notícia com nojo e repugnância”. A declaração é de um tripulante que já trabalhou com o piloto de Guararema Sérgio Antônio Lopes, de 60 anos, suspeito de chefiar uma rede de abuso sexual infantil.
Sérgio foi preso temporariamente na manhã desta segunda-feira (9) enquanto ele trabalhava em um voo da Latam no Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo.
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) informou que a audiência de custódia do piloto foi realizada na tarde desta terça no Complexo Judiciário Ministro Mário Guimarães (Fórum Criminal da Barra Funda).
Durante a audiência, Lopes foi assistido por um advogado. "Trata-se de cumprimento de mandado de prisão. Não foram identificadas irregularidades no cumprimento e ele segue preso."
Segundo o TJ, como o processo tramita sob segredo de justiça outras informações e documentos estão com acesso restrito às partes e advogados.
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Piloto foi preso dentro de avião no aeroporto de Congonhas suspeito de manter rede de abuso sexual infantil
Reprodução/TV Globo
Ao g1, o ex-colega, que preferiu não se identificar, contou como reagiu ao saber da prisão pela televisão. Segundo ele, que conviveu profissionalmente por muito tempo com o piloto, a imagem que Sérgio passava no ambiente de trabalho era completamente oposta à do crime investigado pela polícia.
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“A gente sempre imagina que uma pessoa como essa esteja longe. Você olha e não percebe que a pessoa é capaz de cometer um crime hediondo e da pior forma, com crianças. Ele tratava todos com educação. A gente não imagina que o abusador tenha essas características, mas acontece muito”, comentou.
Para o ex-colega do piloto, o caso serve de alerta para a importância da vigilância constante com as crianças.
“A gente precisa estar mais alerta com esse tipo de situação também, estar sempre vigilante com as crianças, porque não é de hoje que falamos que o perigo está sempre perto. A gente quer sempre acreditar que pessoas são boas, mas não são. Precisamos cuidar, denunciar e agir”, reiterou.
🔎 O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que zelar e proteger crianças e adolescentes é dever de todos. De acordo com o artigo 4º, a responsabilidade é compartilhada entre a família, a comunidade, a sociedade em geral e o poder público, que devem assegurar, com absoluta prioridade, direitos fundamentais como vida, saúde, educação, dignidade e convivência familiar, além de protegê-los de qualquer forma de negligência, violência, exploração ou discriminação.
Investigação
Segundo a investigação da Polícia Civil, que durou cerca de três meses, o suspeito levava crianças e adolescentes a motéis utilizando documentos de identidade falsos, onde cometia os abusos.
A polícia apurou ainda que Sérgio recebia imagens das vítimas enviadas por mães, avós ou outros responsáveis por meio do WhatsApp, em troca de dinheiro.
Além do piloto, a avó de três vítimas foi presa temporariamente. Já a mãe de outra criança foi detida em flagrante por armazenamento e compartilhamento de material de exploração sexual infantil.
Em entrevista coletiva, a delegada Ivalda Aleixo, chefe do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), explicou que a prisão foi realizada no aeroporto devido à dificuldade de localizar o suspeito em casa.
"Ele tem uma residência em Guararema. Não conseguíamos saber quando ele estava voando ou não. Optamos por pedir a escala para a empresa e identificamos que ele faria um voo hoje. Quando chegamos no aeroporto por volta das 5h30, ele já estava lá. Quando começaram a fazer a chamada do voo, nós fomos perguntar e ele já estava no avião. Era uma forma de tentar localizá-lo", contou a delegada.
Ivalda relatou ainda que a esposa do piloto, que é psicóloga, ficou horrorizada ao tomar conhecimento dos crimes. O casal havia retornado recentemente de uma viagem de lua de mel.
Polícia cumpriu mandados de busca e apreensão em Guararema, na casa do piloto Sérgio Antônio Lopes
Reprodução/Redes sociais
Abordagem nas vítimas
Segundo a polícia, o piloto inicialmente se aproximava da mãe, avó ou responsável legal pela criança ou adolescente. Em seguida, deixava claro que o interesse era na vítima e fazia a proposta.
“Cada imagem recebida gerava pagamentos via Pix, geralmente de R$ 30, R$ 50 ou R$ 100. Em alguns casos, ele comprava medicamentos, pagava aluguel e houve até a compra de uma televisão”, disse a delegada.
Até o momento, a Polícia Civil identificou dez vítimas no estado de São Paulo, mas o número pode ser muito maior. De acordo com os investigadores, o celular apreendido com o suspeito contém imagens que indicam vítimas de outros estados.
A polícia também apura com quem o material era compartilhado. “Além do consumo pessoal, há fortes indícios de que ele distribuía esse conteúdo para outras pessoas”, afirmou Ivalda.
Operação
A operação deflagrada nesta segunda, batizada de Apertem os Cintos, investiga, entre outros crimes, estupro de vulnerável, favorecimento da prostituição e exploração sexual de criança e adolescente.
A operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão contra quatro investigados na capital paulista e na cidade de Guararema, na Região Metropolitana, onde o piloto mora.
Segundo a polícia, "as provas colhidas até o momento mostram que os crimes investigados integram uma estrutura organizada de exploração sexual infantil, com indícios de habitualidade, divisão de funções e atuação coordenada entre os envolvidos".
Em nota, a Latam Airlines Brasil informou "que abriu apuração interna e está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações".
A companhia disse ainda que "repudia veementemente qualquer ação criminosa e reforça que segue os mais elevados padrões de segurança e conduta".
Segundo a empresa, o voo LA3900 (São Paulo/Congonhas–Rio de Janeiro/Santos Dumont), que seria feito pelo piloto preso, operou normalmente, decolando e pousando no horário previsto.
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