'Menina Milagrosa': conheça a história da criança que morreu em incêndio há 86 anos, virou símbolo de fé e atrai devotos a capela no interior de SP

  • 19/03/2026
(Foto: Reprodução)
Grupo de moradores de Angatuba se une para reformar capela dedicada a Maria Cordeiro "A minha filha estava com um tumor no intestino. Foram feitos os exames, e os médicos, na hora de fazer a cirurgia, desistiram de fazer, porque estava muito avançada a doença. Aí, fiz pedido para a 'Menina Milagrosa' ter dó da minha filha e, naquela noite que eu fiz o pedido, tive um sonho com ela, em que ela pediu para eu rezar dez terços na capelinha. Aí, eu convidei meus parentes e fomos lá na capelinha e rezamos um terço por dia, por dez dias. Quando terminaram os dez dias, a minha filha estava curada." O relato acima é de Sérvulo Angelo de Meira, de 80 anos. Nascido e criado em Angatuba (SP), ele conta que, em um momento de grande necessidade, recorreu à ajuda de uma menina que, assim como ele, também nasceu na cidade. A criança teve uma morte trágica aos quatro anos e, até hoje, 86 anos depois, a história ainda mexe com o imaginário e fortalece a fé de moradores da região. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp A história, que passou a ser conhecida como a da "Menina Milagrosa de Angatuba", é contada no livro "Fandango do Miliano", da professora angatubense Maria Aparecida Morais Lisboa. Ao g1, a escritora contou que, para reconstruir os acontecimentos, conversou com um dos irmãos da menina Maria Cordeiro, filha de Victor Cordeiro dos Santos e Rosa Scábari, imigrante italiana. A família vivia e trabalhava em um cafezal pertencente a Osório Quaresma, no Bairro dos Leites, na zona rural de Angatuba. O casal teve 12 filhos, mas apenas quatro sobreviveram: Benedito, Oswaldo, Francisco e Elvira. Foi Benedito quem narrou os acontecimentos da morte da irmã. Sérvulo junto de familiares em frente à capela construída em homenagem à menina Maria Cordeiro, que morreu aos quatro anos, em Angatuba (SP) Arquivo pessoal "Na tardezinha de 12 de dezembro de 1940, seus irmãos Oswaldo, com nove anos, e Maria, com quatro, pediram à mãe Rosa, que estava preparando o jantar, para buscar um cacho de banana nanica na casa do Sr. Elias Pires. A mãe não consentiu, pois a refeição seria servida imediatamente. As crianças insistiram tanto que a mãe cedeu nas ordens e elas foram contentes buscar o presente", relata a professora no livro. Para chegar ao local, os irmãos usaram um caminho mais curto que cortava uma roça. Ainda conforme registrado no livro, as crianças passaram por um terreno em chamas após uma queimada no capinzal. Na volta para casa, os irmãos se viram cercados pelo fogo. Assustados e sem conseguir encontrar uma rota de fuga, ficaram presos no meio das chamas. "Um morador, João Rocha, que estava nas proximidades, ouviu os gritos de Oswaldo e correu para prestar socorro. O menino foi encontrado gravemente ferido, com queimaduras, mas sobreviveu. Já Maria não resistiu", conta a professora. Professora angatubense Maria Aparecida Morais Lisboa, autora do livro 'Fandango do Miliano', que relata a história da morte de Maria Cordeiro Arquivo pessoal O corpo da menina ficou completamente carbonizado. Seus restos mortais foram enrolados na camisa de João Rocha para que pudessem ser velados em casa, como era costume na época. No dia seguinte, foram levados em uma rede até o cemitério de Angatuba. A professora relata que, a partir das informações reunidas em entrevistas, conseguiu formar uma imagem de como a menina era: branca, de cabelos loiros, que a mãe costumava manter sempre trançados. "Eu sou também genealogista e, enquanto fazia a genealogia da menina, me falaram de um pintor, chamado Beato Ten Prenafeta. Descobri que ele é neto do escultor espanhol Nhô Tomazinho Prenafeta, que esculpiu a cruz colocada no interior de capela. Falei com o Beato e disse: 'Todo mundo quer uma imagem da menina'. Aí ele pintou um quadro com a descrição da menina", conta a professora. O trabalho realizado pelo pintor Beato Ten Prenafeta ainda não foi oficialmente divulgado e será exposto, inicialmente, na capela construída em homenagem a Maria Cordeiro. Uma singela capela Com o passar dos anos, o local do acidente passou a ser visto como um espaço de devoção popular. Inicialmente, moradores ergueram uma cruz no ponto onde a menina morreu. Algum tempo depois, foi construída no local uma capela em homenagem à criança citada pela professora. A obra foi feita por Gumercindo Pires de Arruda, um dos únicos pedreiros que viviam na região à época. Ele morreu em 2011, mas o filho, Airton Pires de Arruda, contou ao g1 que acredita que a capela tenha sido construída na década de 1960: "Pelo que a gente sabe, ficou um tempão apenas uma cruz no local. Aí, bem depois, meu pai construiu a capelinha lá. Eu não lembro de estar sendo construída, como sou nascido em 1955, penso que foi construída por volta de 1960. Até então, era só uma demarcação, um cruzeiro no local." Cruz colocada por Tomazinho Prenafate antes da construção da capela marcou local de morte da menina por alguns anos Arquivo pessoal "Foi um acontecimento muito forte para a época. Minha mãe, que nasceu no mesmo ano que a menina, em 1936, contava da tragédia, mas não entrava em muitos detalhes", completa. A capela foi construída com tijolos e barro. Até hoje, o acesso ao local não é fácil e, naquela época, as dificuldades eram ainda maiores. Máquinas não conseguiam passar com facilidade pela estrada, por isso grande parte da obra foi realizada de forma manual. "Meu pai era o único pedreiro e carpinteiro, uma pessoa disponível a ajudar. Doava a vida dele para muita coisa. Tem um senhor, o José Lemes de Jesus, que está para completar 100 anos em maio, e que contribuiu para a construção da capelinha. Uma vez tive curiosidade de conversar com ele, e ele me disse que, naquele tempo, não havia trator, então trouxe o material de carroça para que meu pai pudesse construir", relata Airton. União de fé e esforços A pequena igreja permaneceu praticamente da mesma forma por pelo menos seis décadas. Mesmo com estrutura simples, a capela recebia muitos visitantes, já que a devoção à menina cresceu entre moradores da região, que passaram a atribuir graças e milagres à sua alma. Com o passar do tempo, pessoas de Angatuba e de cidades vizinhas passaram a visitar o local para cumprir promessas, deixando roupas, fitas, fotografias e outros objetos como forma de agradecimento. Em 2024, o morador Sérvulo Angelo de Meira, citado no início da reportagem, decidiu retribuir após afirmar ter alcançado uma graça ao fazer preces à menina Maria Cordeiro. Mesmo sem trabalhar na área da construção, o idoso arregaçou as mangas e iniciou uma reforma na capela. "Me interessei em ampliar a capela, fazendo banheiros e uma cobertura grande para o povo ficar mais agasalhado lá, por causa desse milagre que a minha filha recebeu depois do pedido que eu fiz para a menina. Comecei a pensar o que seria bom de ter ali. Foi uma forma de agradecimento. Como dizem, 'o bem que Deus faz só o bem pode pagar''", afirma o devoto. A história da morte da menina Maria foi contada a Sérvulo pelos próprios pais, que frequentavam a capela com frequência, ainda antes da reforma. "Aqui no bairro onde eu moro, no Ribeirão Grande, dá dez quilômetros do Bairro dos Leites. Mas meu pai e minha mãe sempre iam na capelinha. Eu fui com eles já adulto. Na época, íamos de trator, carroça. Era um lugarzinho bem simples. Agora, hoje, ficou bem melhor com esse trabalho", relata o morador, com orgulho. As obras no local duraram cerca de três meses. A reforma trouxe mais estrutura para a capela, que passou a contar com dois banheiros, um barracão, uma cobertura e um cômodo para guardar ferramentas e materiais de limpeza. A iniciativa partiu de Sérvulo, mas logo mobilizou outras pessoas. "Eu comecei, mas o povo se interessou em ajudar, porque muita gente havia recebido milagres. Sei de muitos milagres para as crianças. Acredito que por ela ter morrido pequenininha, aos quatro anos", comenta Sérvulo. Antes e depois da capela construída em homenagem à menina Maria Cordeiro, em Angatuba (SP) Arquivo pessoal O morador Airton José de Meira, de 56 anos, foi um dos fiéis que participou da reforma da capela. Assim como outros moradores da mesma faixa etária, ele conheceu a história por meio de familiares. No caso dele, porém, a ligação é ainda mais próxima: o terreno onde ocorreu o acidente, e onde hoje está construída a capela, pertencia ao avô dele, que também foi o morador responsável por recolher os restos mortais da menina e levá-los à família. "Fizemos uma parceria entre seis colaboradores. Recebemos algumas doações e conseguimos realizar a reforma. Eu ajudei tanto com o trabalho quanto com contribuições. O terreno onde está a capelinha era do meu avô, João Rocha. Foram eles que, na época, colocaram fogo no cerradão e, por acidente, acabou acontecendo a morte da menina", relata Airton. LEIA TAMBÉM: Carro atravessa avenida sozinho e para em estacionamento: 'Achei que tinha sido roubado', diz dono Imagem italiana de São Miguel chega pela 1ª vez à única basílica dedicada ao arcanjo no Brasil De hotel a casa paroquial: conheça casarões centenários que ajudam a contar a história de Sarapuí Ele destaca que a reforma só foi possível graças às doações que começaram a chegar ao grupo. "Fomos pedindo doação, na cara e na coragem. Fizemos um banheiro, aí sobrou material, deu para fazer mais um. Foi chegando doação de madeira. Praticamente tudo foi feito com materiais de doação." Moradores de Angatuba (SP) se uniram para reformar e ampliar a capela na zona rural do município Arquivo pessoal Airton também foi responsável por colocar um livro na capela para que os visitantes registrem a passagem pelo local. Segundo ele, em pouco mais de seis meses, o caderno já reúne mais de 3 mil assinaturas. "Desde criança eu ouvia meu pai e minha mãe falarem da menina Maria Cordeiro, que aconteceu esse incidente. Minha mãe costumava ir lá [na capela], às vezes até a pé. Sempre foi um lugar bem visitado, mas o pessoal de mais longe não tinha tanto conhecimento assim. Eu coloquei o livro para receber assinatura, tem nome de gente até do Paraguai que já foi lá", explica. Caderno colocado por Airton Pires na capela reúne assinaturas de visitantes que passaram pelo local Arquivo pessoal O cheiro de rosas Além dos milagres atribuídos a Maria Cordeiro, outro fenômeno que chama a atenção de quem visita o espaço é uma fragrância de rosas que, segundo Sérvulo, exala da cruz que fica no interior da capela. "Quando a gente está rezando o terço, fazendo orações, o cheiro fica mais perfumado. Isso muita gente já relatou, já presenciou. É muito lindo", comenta o idoso. Segundo Sérvulo, algumas pessoas relatam sentir cheiro de rosas vindo da cruz que fica no interior da capelinha Arquivo pessoal A professora Maria Aparecida, autora do livro que conta a história de Maria Cordeiro, explicou ao g1 que está reunindo relatos de possíveis milagres atribuídos à menina. Segundo a escritora, a iniciativa tem como objetivo dar início, junto à Igreja Católica, ao processo do pedido de beatificação da criança. "Têm casos muito interessantes que eu já reuni. Não sabemos ainda se serão consideradas como graça ou milagre. Nós passaremos esses depoimentos à Igreja. Nem todos os relatos são de moradores de Angatuba, existe uma diversidade muito grande. Mas todos envolvem pedidos de cura atendidos", comenta a professora. 🔎 O processo de beatificação na Igreja Católica é uma investigação rigorosa que reconhece virtudes heroicas ou martírio de um falecido, exigindo a comprovação de um milagre por sua intercessão (dispensado para mártires). O processo envolve fases diocesanas (coleta de provas) e romanas (análise no Vaticano), elevando o candidato a "venerável" e, após aprovação do papa, a "beato", permitindo culto local. Ao g1, o padre João Carlos Orsi, nascido em Angatuba, explicou como funcionam os procedimentos de canonização na Igreja Católica. Ele aponta que a Igreja Católica respeita manifestações de fé popular, mas a canonização depende de um processo longo e rigoroso. “A Igreja tem muito respeito por esse tipo de devoção popular e não vai proibir. Por exemplo, quem vai à capela da menina, em Angatuba, diz que sente uma paz muito grande. Tudo isso são bons sinais. A Igreja não proíbe, mas também não vai canonizar apenas por isso, porque existe todo um processo que vai para Roma e depende de milagres concretos, comprovados”, explica. O padre também detalhou que o reconhecimento de santidade passa por várias etapas dentro da própria Igreja. “O processo é muito longo. De modo geral, quando uma pessoa morre com fama de santidade, a primeira etapa acontece no âmbito da diocese do local onde ela morreu. Esse processo começa quando se pede autorização para Roma, onde existe o chamado Dicastério para as Causas dos Santos, responsável por analisar esses casos e conduzir as etapas que podem levar primeiro à beatificação e, depois, à canonização”, afirma. Capela em homenagem à menina Maria Cordeiro passou a receber missas após reforma feita por grupo de moradores Arquivo pessoal Enquanto reúne depoimentos e acompanha a situação da capela, a professora percebe que a história e os supostos milagres atribuídos à menina deixaram de circular apenas entre moradores da zona rural de Angatuba e passaram a se espalhar para além da região, ganhando cada vez mais repercussão. "É impressionante como a religiosidade popular se dissemina. É fé, posso dizer claramente que é fé. Existe essa determinação em prol do sagrado. Quando me contaram a história, achei que fosse algo mais local, restrito ali ao entorno do Bairro dos Leites. Mas, de um tempo para cá, percebo que ultrapassou a região", afirma Maria Aparecida. "Porque que a Igreja canoniza certas pessoas? em primeiro lugar, para ser um intercessor pertence Deus. Em segundo lugar, o Santo existe também para ser nosso modelo de vida de cristã. Um modelo de vida para seguirmos. Pode ser uma mãe, um pai, uma criança", afirma o padre. Após reforma, capela passou a receber fiéis para a celebração de missas Arquivo pessoal Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2026/03/19/menina-milagrosa-conheca-a-historia-da-crianca-que-morreu-em-incendio-ha-86-anos-virou-simbolo-de-fe-e-atrai-devotos-a-capela-no-interior-de-sp.ghtml


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