Menino autista cria monstrinho que ‘come o recreio’ e escreve livro inspirado na escola com ajuda da mãe
02/04/2026
(Foto: Reprodução) Menino autista cria monstrinho que 'come' recreio e transforma memórias da escola em livro
Com ajuda da mãe, um menino autista transformou experiências vividas na escola em um livro infantojuvenil. Moradores de Marília (SP), Angélica Masson, de 36 anos, e o filho Joaquim, de 12, escreveram juntos a obra “Come-recreio”, inspirada na imaginação do garoto.
Nesta quinta-feira (2) são celebrados o Dia Mundial da Conscientização do Autismo e o Dia Internacional do Livro Infantil, datas que dialogam diretamente com a história dessa família.
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Angélica e Joaquim Masson lançaram 'Come-recreio' em 2026
Arquivo pessoal
Em entrevista ao g1, Angélica contou que a obra nasceu quando Joaquim tinha nove anos e passou a demonstrar grande preocupação com a duração do recreio na escola, que, segundo ele, parecia cada vez menor.
Para explicar essa sensação, o menino criou um personagem: um monstrinho que "comia" o tempo destinado às brincadeiras.
"Ele começou a notar e se preocupar muito com o tempo do recreio, que parecia estar encolhendo. Para elaborar isso, passou a falar de um monstrinho carnudo que literalmente comia o tempo do recreio. Me contava com detalhes incríveis: nome, aparência, manias… e o mais bonito é que cada pedacinho de tempo tinha um gosto diferente para o Come-recreio", relembra Angélica, que é advogada especialista em direitos das pessoas autistas.
Angélica Masson, de 36 anos, e o filho Joaquim, de 12, acabaram selecionados pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB)
Divulgação
A partir dos relatos do filho, a mãe passou a registrar as ideias e ajudou a desenvolver a narrativa. O projeto foi inscrito em um edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e acabou selecionado, permitindo que a história fosse aprofundada e publicada.
"Inscrevi a ideia dele em um edital, e ela foi selecionada, entre várias outras de adultos e escritores experientes. A ideia dele merecia um livro, e não fui só eu, com o olhar de mãe, que vi isso", comenta.
Na história, o personagem central, o Come-recreio, transita entre um imponente relógio de parede e um monstro faminto por minutos. As ilustrações de Paula Mello deram vida ao personagem, unindo texto e imagem em uma narrativa lúdica e sensível.
Produção literária surgiu a partir dos pensamentos criativos de Joaquim Masson
Arquivo pessoal
Para Angélica, a obra apresenta uma espécie de distopia sob o olhar de uma criança autista, refletindo sobre como a pressa do mundo adulto pode invadir o tempo da infância.
"Vivemos em uma era em que até o lazer é cronometrado. 'Mastigar' o tempo devagar é quase um ato subversivo, e a literatura infantil pode dialogar com isso, reforçando que o tempo da infância precisa ser defendido", afirma.
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Segundo a autora, o livro também contribui para ampliar a representatividade.
"Entender que um livro bom pode ser escrito por uma pessoa autista traz representatividade essencial: quebra estereótipos, valida ritmos e pode trazer esperança para famílias e educadores. Inclusão não é pena, é o caminho, é direito", diz.
Angélica Masson e o filho Joaquim, de Marília (SP), escreveram o livro infantojuvenil 'Come-recreio'
Arquivo Pessoal
Escrita fortaleceu relação entre mãe e filho
De acordo com Angélica, o processo criativo também fortaleceu a relação entre os dois. Ela destaca que o trabalho exigiu respeito ao ritmo do filho e escuta atenta durante todo o processo.
"A gente sempre foi 'grudinho chiclete', mas escrever o Come-recreio juntos nos trouxe experiências novas que nos fizeram nos conhecer ainda mais profundamente", afirma.
"Para mim, mergulhar no ritmo único dele, guiado pelo hiperfoco neurodivergente – sem forçar nada, só escuta atenta, respeito ao tempo dele e equilíbrio entre a criatividade pura dele e adaptações difíceis de aceitar. Isso enriqueceu nossos laços, provando que a neurodivergência é terreno fértil e que a literatura é um trabalho sério, não só aplausos", reitera Angélica.
Escrever livro junto fortaleceu relação entre mãe e filho autista
Arquivo Pessoal
O lançamento do livro ocorreu em 7 de fevereiro de 2026, na Biblioteca Municipal de Marília, com atividades voltadas às crianças.
"As crianças se divertiram muito e participaram das atividades de colagem. Marília tem famílias que incentivam muito os pequenos leitores, e é bonito fazer parte disso", afirma.
Lançamento do livro 'Come-recreio', de autoria de Angélica e Joaquim Masson
Arquivo pessoal
Leitura como resistência
Angélica destaca que Joaquim teve alfabetização mais tardia em relação aos colegas, mas hoje mantém forte relação com a leitura e a escrita.
Para ela, o hábito da leitura também carrega um significado simbólico. "Ler sem pressa, atento ao que é dito e ao que não é dito, é um gesto de resistência", diz.
A autora ainda defende a importância da rede de apoio entre famílias de crianças neurodivergentes.
"O próximo passo é persistir unidos. Mãos dadas com outras mães é uma revolução silenciosa, transformando 'nãos' em direitos reais", conclui.
Angélica Masson é advogada do direito dos autistas e lançou livro com o filho, Joaquim
Arquivo pessoal
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