MP abre inquérito para apurar esquema que levou a demissões na Secretaria de Turismo e na SPTuris; promotor pede que polícia investigue
03/03/2026
(Foto: Reprodução) Controladoria da capital investiga contratos de quase R$ 240 milhões da SPTuris
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação para apurar as denúncias de favorecimento e sociedade oculta envolvendo membros demitidos na semana passada da Secretaria Municipal de Turismo (SMT) da Prefeitura de São Paulo e na SPTuris.
Segundo a Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, os indícios denunciados pelo portal "Metrópoles" e confirmados pelo g1 de que o agora ex-secretário-adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, usou o cargo para favorecer a agência MM Quarter e a Associação de Bem-Estar, Esporte e Cultura (ASA) são robustos e, portanto, deverão ser alvo de apuração aprofundada dos promotores paulistas.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse, por meio de nota, que "apoia integralmente a abertura de investigação no Ministério Público, que ocorrerá em conjunto e com todo apoio da Controladoria Geral do Município" e que "o prefeito não compactua com irregularidades na gestão municipal" (veja íntegra da nota abaixo).
Em nota, a MM Quarter disse que "é uma empresa privada que atua na prestação de serviços operacionais e produção de eventos, tanto para o setor público quanto para a iniciativa privada".
"A atuação da empresa é pautada estritamente pela legislação vigente e pelos preceitos legais. A empresa permanece à disposição das autoridades para qualquer eventual esclarecimento".
No documento, o promotor José Carlos Blat pediu para que a Divisão de Investigações de Crimes Contra a Administração Pública (DISCCA), da Polícia Civil, também investigue os empresários Nathalia Carolina de Souza Silva, sócia da empresa MM Quarter no papel, e seus supostos sócios ocultos, Rodolfo Marinho e Victor Correa de Moraes.
Conforme a apuração do g1, Natália aparece nos documentos oficiais como dona única da empresa, que tem mais de R$ 239 milhões em contratos só com a SPTuris, mas a própria Controladoria Geral do Município (CGM) encontrou duas procurações em que ela dá plenos poderes de administração da empresa para Rodolfo Marinho e Victor Moraes gerirem a empresa.
Rodolfo Marinho da Silva, ex-secretário-adjunto do Turismo, e Gustavo Pires, agora ex-diretor presidente da SPTuris.
Reprodução
As procurações encontradas pela CGM indicam, segundo o próprio controlador da cidade, Daniel Falcão, uma sociedade oculta entre Natália e os demais investigados.
A descoberta do esquema dentro da Secretaria de Turismo levou o prefeito Ricardo Nunes (MDB) a exonerar, na semana passada, Rodolfo Marinho e o presidente da SPTuris, Gustavo Pires, que pediu para deixar o cargo.
“Considerando a notícia de eventual superfaturamento e inexecução de contratos celebrados com a MM Quarter, para fornecimento de guias de turismo bilíngues e copos de 200 ml de água a eventos organizados pela prefeitura e entidades a ela vinculadas, (...) há necessidade de melhor investigação dos possíveis ilícitos noticiados, objetivando a apuração de eventuais responsabilidades funcionais e a reparação de eventual prejuízo causado ao erário”, escreveu o promotor José Carlos Blat.
A investigação aberta pelo MP-SP atende a um pedido dos vereadores Nabil Bonduki (PT), Luana Alves (PSOL) e da Bancada Feminista do PSOL.
Além da MM Quarter, o MP-SP incluiu a ONG Associação de Bem-Estar, Esporte e Cultura (ASA) entre os investigados. A empresa tem como presidente Marcelo Correa de Moraes, que também presta serviços para a MM Quarter. Ele é irmão de Victor Moraes.
Segundo o g1 apurou, o telefone de Natália não aparece em nenhum dos contratos firmados entre a SPTuris e a MM Quarter, mas o de Marcelo é atrelado como líder da empresa em vários acordos milionários da empresa investigada com a estatal de Turismo.
Por meio de nota, o ex-presidente da SPTuris - Gustavo Pires - disse que "recebeu com tranquilidade a instauração do inquérito civil e reafirma seu respeito às instituições de controle".
"Durante todo o período em que esteve à frente da São Paulo Turismo, sua atuação foi pautada pelo interesse público, pela legalidade e pela transparência na gestão dos recursos municipais. Ele tem convicção de que a apuração dos fatos permitirá o completo esclarecimento das contratações realizadas e demonstrará que todas as decisões administrativas foram tomadas com base em critérios técnicos e dentro da legislação vigente. Permanece à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários", afirmou a nota.
Nota da gestão Ricardo Nunes
"A Prefeitura de São Paulo apoia integralmente a abertura de investigação no Ministério Público, que ocorrerá em conjunto e com todo apoio da Controladoria Geral do Município. O prefeito Ricardo Nunes pediu, há dez dias, a abertura na CGM de um processo de investigação interna para apurar as denúncias envolvendo a empresa MM Quarter. Foi com base nesta apuração que a administração recebeu a informação de que o ex-secretário adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, tinha uma procuração que lhe concedia plenos poderes para atuar em nome da empresa", disse.
"Marinho foi exonerado automaticamente, assim como houve mudança na presidência da SPTuris. Como mais uma demonstração de que o prefeito não compactua com irregularidades na gestão, foi determinado ainda que todos os contratos da empresa passem por auditoria, ao mesmo tempo em já está dado encaminhamento para um novo processo licitatório", afirmou a Prefeitura de SP.
Demissões na Prefeitura de SP
Nunes anuncia demissão de secretário-adjunto e presidente da SPTuris após denúncias
Segundo o apurado pelo g1, desde 2022, a agência Quarter assinou ao menos 24 contratos só com a SPTuris para prestação de serviços de eventos. Eles somam mais de R$ 239 milhões em quatro anos. A MM Quarter diz que "as insinuações divulgadas não correspondem à realidade dos fatos".
Um dos contratos ativos é para a contratação de guias de turismo bilíngues para o atendimento de turistas durante o carnaval de rua da capital paulista no valor de R$ 9,4 milhões.
Nathalia foi sócia minoritária do secretário Rodolfo Marinho da Silva em uma empresa de comunicação, a Legiscom Publicidade e Consultoria LTDA, que prestou serviços eleitorais ao vereador Gilberto Nascimento JR (PL) e o pai dele, o deputado federal Gilberto Nascimento, nas campanhas de 2020 e 2022. Ela tinha 1% da empresa.
Nathália e Rodolfo Marinho também trabalharam juntos no gabinete do deputado estadual Rodrigo Moraes (PL) em 2017, na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
A MM Quarter só começou a ganhar contratos vultosos com a SPTuris depois que Rodolfo Marinho foi indicado pelo prefeito como secretário municipal de Turismo.
📌 Nesta reportagem, você vai ler:
A Controladoria Geral do Município (CGM) abriu investigação administrativa após denúncia envolvendo contratos da SPTuris.
A apuração envolve uma empresa fornecedora que firmou ao menos R$ 239 milhões em contratos com a Prefeitura de São Paulo desde 2022.
A empresa MM Quarter Produções e Eventos está registrada em nome de Nathalia Carolina da Silva Souza, ex-sócia do atual secretário-adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho.
Nathalia e Marinho já foram sócios em outra empresa de comunicação e também trabalharam juntos em gabinete parlamentar.
A empresa passou a obter contratos de maior valor com a SPTuris após a nomeação de Marinho para a Secretaria Municipal de Turismo.
Registros mostram que Nathalia assumiu como única dona da empresa 13 dias antes da nomeação oficial de Marinho como secretário.
Antes da mudança societária, a empresa atuava com serviços de manutenção e limpeza e depois passou a organizar eventos.
Documentos indicam que Nathalia declarava residência em um imóvel na Vila Sabrina, na periferia da Zona Norte, e posteriormente informou morar em endereço comercial na Avenida Roque Petroni Júnior, na Zona Sul.
O telefone cadastrado da empresa em contratos públicos pertence ao presidente de uma ONG que também possui contratos milionários com a gestão municipal.
Parlamentares da oposição acionaram o Ministério Público e pediram investigação sobre possível favorecimento e uso de empresa “laranja”.
A Prefeitura afirma que determinou apuração completa sobre eventuais irregularidades.
Segundo o Diário Oficial e os registros da Jucesp, Marinho foi formalmente nomeado secretário por Nunes em 20 de abril de 2022. Treze dias antes, no dia 13 de abril de 2022, sua então ex-sócia foi registrada na Jucesp como dona única da MM Quarter.
Durante a campanha de reeleição de Nunes, Marinho deixou a titularidade da pasta, tornando-se secretário-adjunto. Quem assumiu o posto principal do Turismo, em junho de 2024, foi o atual secretário Rui Alves de Souza Júnior, pastor evangélico e deputado estadual pelo Republicanos.
Segundo documentos da Junta Comercial de SP (Jucesp), aos quais o g1 teve acesso, a MM Quarter antes era uma empresa de prestação de serviços de manutenção e limpeza, até que, em 13 de abril de 2022, Nathalia Carolina assumiu e mudou a atividade social para microempresa de organização de feiras e eventos, exposições e festas, entre outras qualificantes econômicas.
Rodolfo Marinho é o atual secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Turismo, após ter sido titular da pasta até junho de 2024.
Divulgação/PMSP
Um ano depois, em 20 de maio de 2023, a empresa passou de micro para empresa de pequeno porte (EPP), segundo a Jucesp.
Apesar da mudança na razão social da empresa, o endereço — um terreno com pequenas casas na Vila Sabrina, na periferia da Zona Norte, onde Nathalia Carolina afirmou morar — permaneceu igual, mesmo ela sendo a única proprietária de uma cota de R$ 1,2 milhão da empresa de eventos.
Ela só saiu da sociedade com o secretário-adjunto na Legiscom Publicidade em 9 de maio de 2022, após já ter assumido sozinha a MM Quarter.
Registros da Junta Comercial de SP (Jucesp) mostram a sociedade entre Nathália Souza e o secretário adjunto Rodolfo Marinho da Silva.
Reprodução/Jucesp
A Junta Comercial atualizou o endereço dela no registro da empresa apenas no dia 23 de fevereiro, depois que a reportagem do "Metrópoles" apontou as coincidências estranhas dessa relação comercial entre Natália e Rodolfo Marinho.
Agora, a empresária afirma que é dona majoritária de uma cota de R$ 3,5 milhões da agência e que mora num prédio comercial da Avenida Roque Petroni Júnior, no Jardim das Acácias, Zona Sul, mesmo endereço da nova sede da empresa (veja destaque no documento).
Na portaria, a reportagem foi informada que o prédio da Roque Petroni que agora aparece na Jucesp é apenas de salas comerciais, sem unidades habitacionais.
Segundo a MM Carter, "a evolução patrimonial [da Natália] é compatível com a atuação da empresa no mercado."
Salas em prédio comercial da MM Quarter, onde sócia diz que mora
Rodrigo Rodrigues/g1
Prédio comercial onde Nathalia diz morar
Rodrigo Rodrigues/g1
O telefone registrado como contato da MM Quarter Produções e Eventos nos contratos entre a empresa da Nathália e a SPTuris pertence a Marcelo Camargo Moraes, que é presidente da ONG Associação de Bem Estar, Esporte e Cultura (ASA)– que tem outros contratos com a gestão Nunes desde 2022 que somam mais de R$ 212 milhões, em várias áreas.
Ao anunciar a demissão de Rodolfo Marinho, o prefeito Ricardo Nunes disse nas redes sociais que a Controladoria do Município encontrou uma procuração da empresária Natália Souza dando amplos poderes para que Marinho administre a MM Quarter.
Fontes da prefeitura dizem que o documento assinado por Natália autorizava o agora ex-secretário-adjunto a movimentar contas bancárias, assinar documentos pela empresa, etc.
O Bom Dia SP, da TV Globo, teve acesso ao documento e mostra que a procuração teve vigência de agosto de 2023 até agosto de 2025, enquanto vários contratos da MM Quarter com a SPTuris estavam em vigor (veja abaixo).
A procuração da empresária Natália ao agora ex-secretário-adjunto do Turismo, Rodolfo Marinho da Silva.
Reprodução
No texto, Rodolfo Marinho recebeu até o direito de demitir e admitir empregados da MM Quarter.
Além de Marinho, a CGM descobriu uma segunda procuração onde Nathália Souza dá os mesmos poderes de gestão da empresa para o empresário Victor Correa de Moraes.
Por meio de nota emitida na semana passada, a Quarter afirma que "todos os processos de contratação de seus serviços seguiram critérios técnicos e exigências legais. E a empresa está à disposição das autoridades para esclarecimentos e confia na apuração dos fatos".
Procuração de Nathália Carolina da Silva Souza para o empresário Victor Correia de Moraes.
Reprodução/TV Globo
O que diz a MM Quarter
"A MM Quarter vem a público esclarecer, de forma objetiva e responsável, os questionamentos apresentados, reiterando que as insinuações divulgadas não correspondem à realidade dos fatos.
1.Rodolfo Marinho é sócio oculto da MM Quarter?
Não procede. O quadro societário da MM Quarter encontra-se regularmente registrado na Junta Comercial. A empresa não possui sócios ocultos nem qualquer estrutura paralela de controle societário.
2. Por que o nome de Marcelo Camargo Moraes não consta no quadro societário?
O Sr. Marcelo mantém vínculo contratual com a MM Quarter na modalidade de prestação de serviços por Pessoa Jurídica, com emissão regular de nota fiscal pelos serviços prestados.
3. Qual o papel do Sr. Marcelo Camargo Moraes na empresa?
Marcelo exerce a função de líder de operação e gestão da empresa, atribuições previstas em seu contrato. O instrumento contratual está disponível para consulta pelas autoridades competentes.
4. Sobre a alegação de que a sócia majoritária seria “laranja” (o g1 não fez essa pergunta).
A afirmação é inverídica. A sócia está sempre presente e exerce funções efetivas de direção, gestão, tomada de decisões estratégicas, condução operacional e acompanhamento da execução dos contratos assinados pela empresa. Sua evolução patrimonial é compatível com a atuação da empresa no mercado. Seus bens constam na declaração de Imposto de Renda e estão formalmente registrados e declarados às autoridades competentes.
5. Sobre a alegação relativa à residência da sócia
A sócia não reside no imóvel divulgado. A fotografia mencionada data do ano de 2011 e refere-se a imóvel no qual a sócia residiu há pelo menos 12 anos. A utilização de registro desatualizado induz a interpretação equivocada dos fatos.
6. Há parentes do Sr. Marcelo Camargo Moraes na empresa?
A MM Quarter possui estrutura formal de contratação e processos administrativos regulares. Eventuais vínculos pessoais não configuram irregularidade, desde que inexistente conflito de interesses ou violação legal, o que não ocorre. Todas as contratações observam a legislação trabalhista e as normas internas da empresa.
7.A Sra. Nathalia Carolina da Silva Souza gostaria de se manifestar sobre a investigação e sobre o suposto apontamento de que seria “laranja” da empresa?
A Sra. Nathalia prefere não se manifestar sobre o tema. A empresa reafirma seu compromisso com a legalidade e a transparência, confiando que os fatos serão devidamente apurados.
8- Segundo o apurado pelo g1, desde 2022, a agência Quarter assinou 19 contratos só com a SPTuris para prestação de serviços de eventos. Eles somam mais de R$ 229 milhões em quatro anos. Um dos contratos ativos atualmente - em 2026 - é para a contratação de guias de turismo bilíngues para o atendimento de turistas durante o carnaval de rua da capital paulista. O contrato é de R$ 9,4 milhões.
O contrato mencionado possui valor global estimado de R$ 9,4 milhões, conforme previsto no instrumento contratual. Contudo, é importante esclarecer que se trata de contrato por demanda, cujo valor representa teto máximo estimado e não necessariamente o montante integral executado.
Especificamente em relação ao Carnaval de Rua, o valor efetivamente utilizado para a operação foi de R$ 2.987.443,57, correspondente aos serviços efetivamente demandados e prestados no período."
Registro da Alesp mostra que Natália e Rodolfo Marinho foram colegas de gabinete na Alesp em 2017.
Reprodução/Alesp
O que dizem os demais envolvidos
A reportagem também procurou o secretário adjunto Rodolfo Marinho questionando se houve favorecimento da ex-sócia durante a gestão dele, mas não obteve retorno.
Em nota, o vereador Gilberto Nascimento e o deputado Gilberto Nascimento afirmaram que "não têm qualquer relação e desconhecem os negócios da empresa mencionada pela reportagem. A relação com o sr. Rodolfo Marinho, secretário adjunto do Turismo, é profissional."
Por meio de nota, a gestão municipal disse que o prefeito Ricardo Nunes determinou “toda e qualquer apuração, inclusive sobre eventuais irregularidades cometidas por agentes públicos” envolvidos no suposto esquema.
“O prefeito Ricardo Nunes solicitou na manhã de sexta-feira a abertura de um processo investigatório na Controladoria Geral do Município (CGM) para apurar eventuais irregularidades em relação às empresas citadas na reportagem. O prefeito determinou à CGM toda e qualquer apuração, inclusive sobre eventuais irregularidades cometidas por agentes públicos também citados pelo portal”, declarou.
A reportagem questionou se o sr Marcelo Camargo Moraes, presidente da ONG ASA - Associação de Bem Estar, Esporte e Cultura - também será investigado, mas também não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
Oposição pede investigação
A oposição também protocolou um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de SP para apurar o caso.
“Acabo de protocolar a criação de uma CPI para investigar os contratos da prefeitura na realização de eventos na cidade. O Carnaval acaba, mas as empresas e ONGs com contratos suspeitíssimos com a prefeitura continuam”, escreveu o petista nas redes sociais.
Todos os contratos firmados entre a SPTuris e a MM Quarter desde 2022.
Reprodução/SPTuris