PM Gisele: Mensagens mostram que tenente-coronel preso por feminicídio assediou sexualmente outra PM por 8 meses: 'quer namorar?'
08/05/2026
(Foto: Reprodução) PM aposenta tenente-coronel acusado de matar a soldado Gisele Santana
Mensagens de celular mostram que o tenente-coronel da Polícia Militar (PM) Geraldo Neto, de 53 anos, preso acusado de matar a esposa, que era soldado, assediou sexualmente durante oito meses uma outra subordinada de 32 anos em São Paulo.
"Quer namorar comigo?", pergunta o oficial à também soldado Rariane Generoso, em mensagem enviada a ela em 11 de setembro de 2025.
À época, ele era casado com Gisele Alves, que tinha a mesma patente e idade de Rariane. Gisele foi morta em 18 de fevereiro deste ano após ser baleada no apartamento do casal. Neto nega o crime, mas é apontado como o assassino pelo Ministério Público (MP) (saiba mais abaixo).
Os prints de WhatsApp mostram que o tenente-coronel perseguiu a outra soldado entre 26 de junho de 2025 a 4 de março de 2026 _ou seja, até duas semanas após a morte de Gisele, que deixou uma filha de 7 anos.
As mensagens fazem parte das denúncias de assédio sexual e moral, ameaça, perseguição e coação entregues pelo advogado de Rariane, no mês passado, à corporação.
Procurado pelo g1, o advogado do tenente-coronel afirmou que não tem conhecimento da nova acusação de assédio.
A Corregedoria da PM analisa as conversas para apurar administrativamente a conduta de Neto sobre a subordinada. Em uma mensagem, o oficial escreve à soldado:
“Não vejo a hora de te dar um beijo bem gostoso nessa sua boca deliciosa.”
Câmera de condomínio grava tenente-coronel Geraldo Neto (à esquerda) na frente do prédio onde mora a soldado Rariane Generoso, para quem o oficial mandou a mensagem de celular a chamando de 'meu amor' e a convidando para ir rezar. Subordinada o acusa de assédio sexual e moral, perseguição, ameaça e coação.
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Neto ainda costumava colocar o nome de "Deus" nas mensagens à subordinada, agradecendo a ele por ter encontrado Rariane:
“Sabe quando isso vai acabar? Quando a gente se casar e ter um filho bem lindo e saudável abençoado por Deus.”
“Gosto muito de você e continuo a falar com Deus sobre você em minhas orações.”
"Pensei em te convidar pra gente ir a missa juntos."
As respostas da soldado sempre foram diretas e mostram recusa diante das constantes investidas do superior hierárquico:
“Não vamos ter nada.”
“Vamos manter o profissionalismo, por favor.”
“Olha, eu só peço para que me deixe em paz.”
Tenente-coronel Geraldo Neto mandava mensagens constantemente para a soldado Rariane Generoso, Numa delas, ele escreveu que queria dar um 'beijo bem gostoso nessa boca deliciosa''
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Em outra mensagem, Rariane relata o impacto da situação e como está se sentindo desconfortável:
“Nunca tivemos nada e ver meu nome associado como amante tá me deixando muito doente."
E acrescenta:
“Se quer mesmo o meu bem, para de me procurar como se tivéssemos alguma coisa.”
Abordagens fora do trabalho
Geraldo Neto mandava mensagens e tentava ligar constantemente para Rariane Generoso. Oficial citava sempre que rezava para ela e que queria namorá-la.
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Segundo a denúncia levada à Corregedoria da Polícia Militar, as investidas não se limitaram às mensagens. O oficial também foi até o prédio onde a soldado mora, levando um buquê de flores.
Uma câmera de segurança gravou o momento em que Neto sai da portaria (veja foto acima). Depois ele chegou a mandar mensagem a Rariane contando que encontrou o endereço onde ela morava e foi até lá:
"Achei bom aí a rua do seu prédio e também a própria estrutura do condomínio onde você mora".
Tenente-coronel Geraldo Neto chama soldado Rariane Generoso de 'linda'. Ela responde que a esposa do oficial, a também soldado Gisele Alves, a procurou no Instagram. A subordina ainda pede para ele 'manter o profissionalismo' porque não queria nada com ele, 'apenas respeito'.
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Em outra ocasião, ele teria voltado ao local durante o expediente, fardado e usando viatura oficial - a PM veda o uso de carros da corporação para uso pessoal.
Ainda de acordo com Rariane, o tenente-coronel a chamava com frequência para encontros e fazia elogios a sua beleza dentro do ambiente de trabalho. Mesmo com recusas, a insistência continuava.
Em algumas mensagens, ele diz amar Rariane:
“Eu te amo muito e quero fazer você feliz de verdade.”
Pressão e constrangimento
Tenente-coronel Geraldo Neto insiste em dizer para soldado Rariane Generoso namorar com ele e que só vai parar quando eles se casarem e tiverem um 'filho bem lindo e saudável'. A subordinada responde que está sendo chamada de 'amante' dele e isso a está deixando 'muito doente'.
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A soldado afirma que nunca teve qualquer relacionamento com o superior e diz que passou a sofrer constrangimento dentro da corporação, com colegas comentando que ela seria amante dele.
Segundo a denúncia apresentada à Corregedoria, o oficial também teria tentado usar a posição de comando para se aproximar. Ele sugeriu que a policial assumisse uma função administrativa próxima a ele e, após a recusa, teria ameaçado transferi-la.
Ela relata que passou a evitar escalas em que ele estivesse presente, por medo.
Contato continuou após a morte da esposa
Nas mensagens que mandou para a soldado Rariane Genoroso, usando outro celular, o tenente-coronel Geraldo Neto mandou uma foto (ao centro) para provar que era ele. O oficial procurou a subordinada duas semanas após o assassinato da esposa para dizer que não a havia matado.
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A denúncia afirma ainda que o tenente-coronel voltou a procurar a soldado mesmo após a morte da esposa, em fevereiro.
Segundo o relato, ele enviou mensagens tentando se explicar, dizendo que não havia cometido o crime. A policial afirma que ignorou o contato.
Caso Gisele e investigação por feminicídio
Justiça determina que morte da PM Gisele Alves seja investigado como feminicídio
Geraldo Neto está preso sob acusação de balear a esposa, a PM Gisele Alves, dentro do apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital, horas depois.
De acordo com o Ministério Público, o crime ocorreu porque o oficial não aceitava a separação. A investigação aponta que Gisele decidiu se divorciar após descobrir traições do marido.
O tenente-coronel responde na Justiça como réu por:
feminicídio (assassinato de mulher por razões de gênero — como violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição feminina)
fraude processual (porque alterou a cena do crime para simular um suicídio)
Segundo a investigação, ele teria tentado encenar o suicídio da esposa. A defesa dele sustenta que Gisele se matou e que seu cliente é inocente.
O tenente-coronel Geraldo Neto e a esposa, a PM Gisele Alves Santana.
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Além do processo criminal, na Justiça comum, o oficial responde a um procedimento interno na Polícia Militar e pode perder o cargo.
A Corregedoria também apura se Neto usou da posição de superioridade na hierarquia da corporação para intimidar os agentes da PM que tinham ido até o apartamento dele atender a ocorrência da morte de Gisele. Os agentes gravaram com câmeras corporais o comportamento do oficial.
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