Quaresma transforma jejum em solidariedade e fortalece corrente do bem em Jundiaí
18/02/2026
(Foto: Reprodução) Segundo o padre Eduardo Augusto Belão, a quaresma não se resume a deixar de consumir algo
Padre Eduardo Belão/Arquivo pessoal
A quaresma é um dos períodos mais importantes para os católicos. São 40 dias de preparação para a Páscoa, vividos com mais intensidade espiritual. Um tempo marcado por três pilares: oração, penitência e caridade. Mais do que tradição, a proposta é mudança de atitude.
Neste ano de 2026, o Papa Leão XIV reforçou esse chamado ao pedir que os fiéis façam também um jejum das palavras negativas — evitando fofocas, críticas destrutivas e julgamentos. A proposta é simples e profunda: usar a fala para construir, não para ferir. Uma forma concreta de viver a conversão no cotidiano.
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40 ou 46 dias? Padre explica duração da quaresma na Igreja Católica
Segundo o padre Eduardo Augusto Belão, a quaresma não se resume a deixar de consumir algo. O sentido maior está em transformar o sacrifício em gesto de amor. Quando o jejum se converte em caridade, a prática ganha um novo significado.
Na Paróquia Cristo Redentor, em Várzea Paulista (SP), de onde ele é pároco, essa proposta se transforma em ação concreta. Na Quinta-feira Santa, os fiéis são convidados a levar até a igreja o alimento do qual abriram mão durante o período — ou contribuir com uma ajuda financeira. A própria comunidade organiza a arrecadação e direciona os donativos às famílias que mais precisam.
Atualmente, a paróquia acompanha e auxilia mais de 25 famílias, que dependem desse apoio para complementar a alimentação.
Dona Vera Lúcia Ferreira conta que, quando intensifica os momentos de conversa com Deus, sente que o desejo de fazer o bem cresce de forma natural
Gustavo Netto/TV TEM
Para o padre, é nesse movimento que a fé ganha vida: quando o gesto individual alcança quem enfrenta dificuldades no dia a dia.
Na rotina de muitos fiéis, essa mudança começa no silêncio da oração. Dona Vera Lúcia Ferreira, dona de casa, conta que, quando intensifica os momentos de conversa com Deus, sente que o desejo de fazer o bem cresce de forma natural. Para ela, oração e jejum caminham juntos e acabam despertando a vontade de ajudar o próximo.
Essa experiência também é vivida por Dona Mafalda Moreira, artesã. Para ela, doar não é apenas entregar algo material. A caridade pode estar no alimento oferecido, mas também no tempo dedicado, na intenção colocada em uma oração e na disposição em cuidar de quem precisa.
Para Dona Mafalda Moreira, doar não é apenas entregar algo material
Gustavo Netto/TV TEM
E é essa fé prática que movimenta histórias concretas na cidade. Em Jundiaí, a Casa de Nazaré acolhe atualmente 35 crianças e adolescentes afastados das famílias por decisão judicial, em razão de situações de risco. No local, eles encontram mais do que abrigo: recebem acompanhamento, constroem rotina e têm a oportunidade de recomeçar.
Durante a quaresma, a entidade sente diretamente os efeitos da mobilização dos fiéis. As doações aumentam e os estoques ficam mais abastecidos.
De acordo com o coordenador técnico Bruno Barbosa, não são apenas alimentos que chegam. Muita gente aproveita o período para organizar o guarda-roupa e leva roupas, brinquedos e itens que estavam guardados em casa. E, muitas vezes, ao fazer a entrega pessoalmente, acaba conhecendo de perto a realidade da instituição.
É nesse contato que surgem novas formas de ajuda. "Tem pedagogos que vieram trazer doação e perceberam que poderiam oferecer aulas de reforço. Músicos que começaram a ensinar instrumentos para as crianças. Pessoas que passaram a ajudar na rotina da casa, na cozinha, na organização de eventos", relata.
Segundo ele, a quaresma funciona como uma "porta de entrada para o bem". De um gesto simples nasce um voluntário para o ano todo.
Parte dessa corrente do bem passa pelas mãos de voluntários como Edvânia Bertani. Corretora de imóveis, ela se tornou uma ponte entre quem quer ajudar e a instituição. Quando surge uma necessidade específica, mobiliza grupos de mensagens, vizinhos e amigos. O carro quase sempre volta cheio. Ela percebe que, neste período, os corações ficam mais sensíveis e abertos à partilha.
Edvânia Bertani e amiga Elaine Medeiros fazendo a doação
Gustavo Netto/TV TEM
O exemplo acabou inspirando outras pessoas. A psicóloga Elaine Medeiros decidiu que, neste ano, vai transformar o café que deixará de tomar durante a quaresma em doações para a Casa de Nazaré. Para ela, a penitência ganha sentido quando gera impacto real na vida de alguém.
A quaresma termina na Quinta-feira Santa, dando início ao Tríduo Pascal — período que relembra a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo e culmina na celebração da Páscoa. Para os fiéis, depois dos 40 dias de reflexão, jejum e caridade, chega o tempo da celebração da vida.
Bruno Barbosa é coordenador técnico da Casa de Nazaré
Gustavo Netto/TV TEM
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