Reag e Banco Master: como a gestora entrou no radar das investigações da PF?
15/01/2026
(Foto: Reprodução) Banco Central decreta liquidação da Reag
O Banco Central decretou nesta quinta-feira (15) a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, novo nome da Reag Trust DTVM. Essa é a empresa que faz a gestão dos fundos no grupo da Reag Investimentos.
A medida ocorre um dia depois da segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga o envolvimento da empresa em irregularidades no sistema financeiro e a atuação de nomes ligados à antiga estrutura da gestora no suposto esquema de fraudes do Banco Master.
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A Reag teria atuado na estruturação e administração de fundos suspeitos de movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro. Entre os alvos da operação está João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag.
O nome da Reag, porém, não aparece apenas neste inquérito. Ela é investigada na megaoperação Carbono Oculto, deflagrada contra o PCC. Nesse caso, a empresa é acusada de gerir fundos de investimento usados pela facção para lavagem de dinheiro.
A seguir, o g1 reúne as principais informações sobre a empresa e explica como ela surge vinculada ao escândalo envolvendo o Banco Master.
O que é a Reag
Quem é João Carlos Mansur
Operação Carbono Oculto
Operação Compliance Zero
Liquidação pelo BC e elo com o Master
Expansão no mercado financeiro
O que diz a Reag
O que é a Reag
Fundada em 2013 por João Carlos Mansur, a Reag Investimentos se tornou uma das maiores gestoras independentes do país, sem vínculo com bancos.
Ela chegou a administrar R$ 299 bilhões de pessoas físicas, empresas, fundos de pensão e investidores institucionais e foi a primeira gestora de patrimônio a ter ações negociadas na bolsa brasileira.
A Reag era controlada pela Reag Capital Holding S/A, que também administrava a CiabraSF, outra holding independente citada na Operação Carbono Oculto, em agosto.
A CiabraSF teve sua compra finalizada pelo Grupo Planner na terça-feira passada (6). O negócio incluiu uma condição específica: a realização de uma oferta pública de aquisição de ações, mecanismo pelo qual o novo controlador faz uma proposta para comprar as ações em circulação e, assim, assumir oficialmente o controle da empresa.
Em outubro do ano passado, a Reag Capital Holding anunciou o cancelamento de seu registro como companhia aberta. Com a decisão, ela deixou a categoria B, destinada a empresas que emitem títulos ao público (como debêntures ou cotas de fundos de investimentos), mas não têm ações na bolsa.
O fechamento de capital aconteceu em um momento de reorganização das empresas controladas pela holding, após a Reag Investimentos ter sido incluída entre as companhias investigadas pela megaoperação da Polícia Federal contra o PCC. (entenda mais abaixo)
Poucos dias depois da operação, a companhia anunciou a venda da Reag Investimentos para a Arandu, formada pelos principais executivos da própria Reag.
Fora do mercado financeiro, a Reag ganhou visibilidade ao patrocinar o Cine Belas Artes, um dos cinemas mais tradicionais de São Paulo. Com a aquisição dos direitos de nomeação, o espaço passou a se chamar REAG Belas Artes a partir de janeiro de 2024.
Em dezembro, no entanto, o Cine Belas Artes anunciou o fim da parceria e iniciou uma campanha para encontrar um novo patrocinador.
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Quem é João Carlos Mansur
João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag Investimentos, está entre os investigados na segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master.
Essa, porém, não foi a primeira vez que o empresário se envolveu em controvérsias. Mansur renunciou ao cargo de presidente do conselho de administração da Reag Investimentos em setembro do ano passado, após a empresa ter sido alvo de uma megaoperação contra o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Bacharel em ciências contábeis, Mansur fundou a Reag Investimentos em 2013, acumula 35 anos de experiência no mercado financeiro e atua como conselheiro independente autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O empresário declara experiência em auditoria, controladoria, gestão financeira, planejamento estratégico, análise de investimentos e desenvolvimento de negócios.
👉 Em seu perfil no LinkedIn, afirma ter estruturado mais de 200 fundos de investimento — entre eles fundos imobiliários, de participações e de direitos creditórios —, além de ter atuado em outras operações no mercado de capitais.
Mansur atuou como executivo em empresas como PricewaterhouseCoopers (PwC), Monsanto, Tishman Speyer e WTorre Arenas, além de ter participado da criação do estádio Allianz Parque.
Além de sua ligação com o futebol por meio da Reag, Mansur trabalhou na Trump Realty Brazil, empresa que utilizava o nome do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A joint venture foi criada em 2003, mas o contrato durou apenas até 2006, após o projeto fracassar antes da conclusão de qualquer empreendimento imobiliário.
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Operação Carbono Oculto
Em agosto do ano passado, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carbono Oculto para desarticular um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, atribuído a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo as investigações, o grupo deixou de recolher mais de R$ 7,6 bilhões em impostos e operava irregularidades em diferentes etapas da cadeia de produção, distribuição e comercialização de combustíveis.
Para ocultar a origem dos recursos, o esquema utilizava uma estrutura financeira complexa, baseada no uso de fintechs e fundos de investimento.
👉 Ao menos 40 fundos, entre multimercado e imobiliários, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, teriam sido controlados direta ou indiretamente pela facção. Muitos eram fundos fechados, com um único cotista, o que dificultava a identificação dos beneficiários finais.
👉 A Reag Investimentos apareceu nas investigações como uma das empresas citadas na apuração sobre o uso de fundos de investimento para a ocultação de recursos.
Segundo a PF e a Receita Federal, administradoras de fundos teriam conhecimento das irregularidades e deixado de cumprir obrigações legais, contribuindo para ocultar a movimentação financeira da organização criminosa.
As apurações indicavam que fintechs eram preferidas em relação a bancos tradicionais para dificultar o rastreamento das transações.
Em um dos casos, a Receita identificou uma fintech que funcionava como um “banco paralelo” da organização criminosa, com movimentação superior a R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024.
Parte dessas operações passava por chamadas “contas-bolsão”, que misturam recursos de diversos clientes e reduzem a transparência das transações.
Os valores obtidos com o esquema foram usados para adquirir ativos e blindar patrimônio, incluindo usinas sucroalcooleiras, distribuidoras, transportadoras, postos de combustíveis, imóveis, fazendas e um terminal portuário.
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Operação Compliance Zero
O caso do Banco Master se tornou o centro de um escândalo financeiro nacional e de uma disputa institucional.
A instituição já operava sob risco de falência por causa da emissão de CDBs com juros muito acima do padrão de mercado e da exposição a investimentos considerados arriscados. Também passou a ser investigada uma possível fraude na venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB), no valor de R$ 12,2 bilhões.
Em novembro, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do banco. No mesmo dia, a primeira fase da operação Compliance Zero, da Polícia Federal, prendeu o controlador do Master, o banqueiro Daniel Vorcaro.
Nesta quarta-feira (14), a segunda fase da operação cumpriu mandados de busca e apreensão contra João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag. A PF também realizou ações em endereços ligados a Vorcaro e a seus parentes. O empresário Nelson Tanure também estava entre os alvos.
A investigação identificou um esquema de captação de dinheiro, aplicação em fundos e desvio para o patrimônio pessoal de Vorcaro e de seus parentes. O celular do dono do Master foi apreendido.
Nesta etapa da operação, foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão, determinados pelo ministro Dias Toffoli, além de medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões. Também foram apreendidos carros e itens de luxo.
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Liquidação pelo BC e elo com o Master
Nesta quinta-feira, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Reag Trust DTVM — área responsável pela gestão dos fundos da Reag Investimentos — agora denominada CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
A decisão implica a interrupção imediata das atividades da instituição, que deixa de atuar como gestora e administradora de recursos no mercado financeiro. A medida, porém, não atinge diretamente os fundos de investimento vinculados à empresa, que seguem existindo, mas precisarão ser transferidos para outras instituições habilitadas.
O BC afirma que a liquidação foi adotada após a constatação do descumprimento de normas legais e prudenciais exigidas pelo regulador.
Em nota, o órgão informou que foram identificadas “graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional”.
De acordo com o BC, essas falhas comprometeram a capacidade da instituição de operar de forma regular e segura, o que levou à decisão de encerrar suas atividades para preservar investidores e o funcionamento do sistema financeiro. A autoridade monetária não detalhou quais condutas específicas motivaram a liquidação.
A Reag atuava na administração e gestão de mais de 80 fundos de investimento, além de prestar serviços de gestão patrimonial a pessoas físicas. A empresa integra um grupo que reúne outras companhias que não foram atingidas pela medida.
O BC informou que seguirá apurando responsabilidades e que as investigações podem resultar em sanções administrativas e no envio de informações a outras autoridades. Os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição ficam indisponíveis durante o processo.
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Expansão no mercado financeiro
Nos últimos anos, a Reag realizou diversas aquisições que ampliaram sua presença no mercado financeiro. Entre as empresas incorporadas estão Hieron, Berkana, Rapier, Quadrante e Quasar.
Em 2024, a Reag adquiriu a Empírica Investimentos, especializada em crédito estruturado e fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), o que a posicionou entre as três maiores do setor, com cerca de R$ 25 bilhões sob gestão.
Em janeiro de 2025, realizou a incorporação reversa da plataforma de serviços GetNinjas, utilizando sua estrutura já listada na B3 para se transformar em uma holding aberta.
Com a reorganização societária, a GetNinjas deixou de operar como empresa independente, e suas ações passaram a ser negociadas na bolsa sob o código REAG3. Em dezembro do ano passado, após a Reag Investimentos ser vendida para a Arandu, o papel passou a ser negociado sob o código ARND3.
Em fevereiro de 2025, a Reag Capital Holding deu outro passo ao anunciar a listagem na bolsa da Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (CiabraSF), empresa do mesmo grupo, sob o código ADMF3.
A estreia ocorreu com uma base expressiva, incluindo a administração de mais de 700 fundos e um patrimônio líquido em torno de R$ 240 bilhões. Lembrando, porém, que a CiabraSF teve sua compra finalizada pelo Grupo Planner na terça-feira passada (6).
Em fevereiro de 2025, a Reag Capital Holding anunciou a listagem na bolsa da Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (CiabraSF), sob o código ADMF3. A estreia ocorreu com uma base expressiva, que incluía a administração de mais de 700 fundos e um patrimônio líquido em torno de R$ 240 bilhões.
Outra empresa do grupo era a Reeve (RVEE3), listada na bolsa em abril de 2025 — mas não citada nas operações da PF. A companhia ganhou destaque em 2024 ao se associar à XP Investimentos e à Tauá Partners na Sociedade Anônima do Futebol (SAF) da Portuguesa, assumindo, na ocasião, a revitalização do estádio do Canindé.
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O que diz a Reag
Procurada pelo g1 nesta quinta-feira, a Reag não comentou a liquidação decretada pelo Banco Central até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações dos envolvidos.
No site da holding, é mantida uma nota de outubro em que a empresa afirma que “atua de forma ética, transparente e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis ao sistema financeiro e de capitais”.
Veja na íntegra o comunicado abaixo:
"A REAG Capital Holding S.A. vem a público repudiar alegações publicadas na imprensa que buscam indevidamente associar a companhia e a atuação de seus executivos a práticas irregulares e organizações criminosas, sem apresentar quaisquer provas de envolvimento em atos ilícitos.
A companhia reafirma que:
* atua de forma ética, transparente e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis ao sistema financeiro e de capitais, sob a supervisão permanente de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários e o Banco Central;
* as estruturas societárias, fundos de investimento e participações sob sua gestão ou administração obedecem integralmente às normas de compliance, governança corporativa, prevenção à lavagem de dinheiro (Resolução nº 50/2021 do Coaf) e conheça seu cliente (Know Your Customer – KYC);
* é incorreto e descabido afirmar que tenha figurado como sócia em operações ou estruturas dos fundos sob sua administração, pois, conforme a Lei nº 8.668/1993, os bens e direitos integrantes dos fundos não se confundem com o patrimônio da administradora, não integram seu ativo e não respondem, direta ou indiretamente, por obrigações da instituição;
* está colaborando de forma ampla e proativa com as autoridades competentes, fornecendo todas as informações e documentos necessários ao esclarecimento dos fatos, convicta de que sua isenção e integridade serão plenamente reconhecidas.
São Paulo, 15 de outubro de 2025
REAG Capital Holding S.A."
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Infográfico explica caminho do dinheiro no esquema do PCC.
Arte/g1
Banco Central (BC) decreta liquidação extrajudicial da Reag Investimentos
Reprodução/Instagram