'Tamo junto no ringue e no asfalto': professor supera dificuldades pessoais e encontra no boxe 'redenção' para transformar vidas no interior de SP

  • 26/03/2026
(Foto: Reprodução)
Professor supera dificuldades pessoais e encontra no boxe redenção para transformar vidas "Tamo junto no ringue e no asfalto". Esse é o lema de Guilherme Campos de Oliveira Neto, de 42 anos, professor de boxe que, em meio a dificuldades pessoais e incertezas sobre o futuro, se reinventou através do esporte. Proprietário da academia Boxe da Zona Leste, em Presidente Prudente (SP), o professor conversou com o g1 sobre a própria trajetória dentro desta arte marcial, mostrando como superou crises pessoais para se tornar referência regional e ponto de cultura. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp A relação de Guilherme com as luvas começou cedo, aos quatro anos, por influência do pai. Embora tenha carregado esse ensinamento por décadas, o boxe ainda não era o protagonista de sua vida. Foi durante um período em que morou na Espanha, entre 2007 e 2009, que ele viveu um processo de autodescoberta. Ao trabalhar na construção civil e conviver com diversas culturas, Guilherme se sentiu livre para desenvolver sua identidade artística. Ao retornar ao Brasil, essa liberdade se transformou em música. Também conhecido como Negro Gui, um dos fundadores das batalhas de rima em Presidente Prudente, ele se tornou um pilar do hip hop no oeste paulista, abrindo shows de grandes nomes nacionais e viajando pelo país. No entanto, após anos de sucesso nos palcos, a vida pessoal e profissional de Guilherme sofreu "golpes" que o obrigaram a dar passos para trás. Entre 2015 e 2017, Guilherme enfrentou um período de estagnação. Com o joelho comprometido por uma artrose avançada e pesando 150 quilos, ele buscou no esporte uma forma de recuperar a própria saúde e mobilidade. 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Sem perspectiva profissional no período pré-pandemia, ele encontrou no esporte uma forma de recomeçar e criou um projeto social que hoje atende crianças, adolescentes e adultos na periferia da cidade. "Eu percebi isso [importância do boxe] quando ia começar a pandemia aqui no Brasil, chegou em Prudente e tudo parou. Eu precisava ter algum recurso, alguma ocupação, fazer alguma coisa. Junto a alguns familiares e primos meus, iniciamos alguns treinamentos em casa, no fim de 2019 para início de 2020. Com isso, tirei a conclusão que eles deram muita atenção para o boxe, com os treinos que a gente fazia no fundo do quintal. Nessa mesma época, tive a ideia de criar o nome e começar a praticar isso criando um projeto social e poder dar aula para jovem adolescente, criança e adolescente", relatou Guilherme. A partir de treinos improvisados em casa, ele deu início a uma atividade que logo se transformou em um projeto social voltado à comunidade, no fim de 2019, ao treinar familiares de maneira informal. Com o início da pandemia e a interrupção de atividades em diversos setores, o espaço ganhou novos participantes e revelou uma demanda reprimida pelo boxe na cidade. "Assim que eu abri o espaço para outras pessoas de fora, além dos meus parentes, começou a surgir uma demanda muito grande. Na época, era um movimento muito carente na nossa cidade, então teve uma explosão enorme, pessoas até de outras cidades vieram para conhecer o espaço para praticar", relembrou. Com o aumento da procura, ele decidiu estruturar o projeto e abrir as portas para crianças, adolescentes e adultos, principalmente moradores de regiões periféricas. A proposta, desde o início, foi oferecer acesso gratuito ao esporte, incluindo treinos e materiais, como forma de inclusão. Atualmente, o espaço funciona como academia e também como ponto cultural reconhecido, reunindo não apenas atividades esportivas, mas também ações ligadas à música e à cultura urbana. Boxe da Zona Leste é ponto cultural em Presidente Prudente (SP) Enzo Mingroni/g1 Formação além do esporte Mais do que ensinar técnicas de luta, o projeto tem como foco a formação pessoal dos alunos. Segundo Guilherme, o trabalho desenvolvido no local prioriza valores como disciplina, respeito e responsabilidade. Nesse contexto, o boxe aparece como uma ferramenta de transformação social. Muitos dos jovens atendidos chegam ao espaço em situação de vulnerabilidade e encontram ali um ambiente de acolhimento e orientação. O treinador relata que, em diversos casos, o local se torna um refúgio diante de dificuldades enfrentadas fora dali, permitindo que os alunos desenvolvam foco e equilíbrio emocional. "Se o cara não tiver vontade de dar o melhor dele, ele não vai chegar a lugar nenhum. Ele vai sentir dor, vai chorar, vai entender que vai ser chato, vai vir treinar de cabeça cheia, vai ter problemas. Tem que ter autocontrole para você poder ter autodomínio, não deixar a cabeça ficar nervosa e ter dedicação que o resultado vem", explicou o professor. Apesar de ser popularmente associado a violência, o boxe é trabalhado no projeto como uma prática voltada ao autocontrole, ou seja, à capacidade de controlar impulsos e lidar com desafios, seja dentro ou fora do ringue. A rotina de treinos exige disciplina e constância, características que, segundo o treinador, impactam diretamente outras áreas da vida dos alunos. Boxe da Zona Leste é ponto cultural em Presidente Prudente (SP) Enzo Mingroni/g1 Relação com alunos A convivência diária acaba criando vínculos que vão além da relação entre professor e aluno. Em alguns casos, Guilherme se torna uma referência familiar para os jovens. Ele conta que já recebeu presentes no Dia dos Pais de alunos que não têm a presença paterna, o que, segundo ele, evidencia o nível de confiança construído ao longo do tempo. "Essa imagem de pai é a parte que falta na vida deles [alguns alunos]. Eles entendem, vai se encaixando e eu acho bacana isso também. São coisas que eu não tive com meu pai, que eu também queria que meu pai tivesse comigo, então eu retribuo isso dessa forma", contou. Essa proximidade também se reflete no acompanhamento fora do esporte, com orientações sobre comportamento, estudos e decisões pessoais. Boxe da Zona Leste é ponto cultural em Presidente Prudente (SP) e conta com projeto social Enzo Mingroni/g1 Entre os participantes, os resultados aparecem tanto no comportamento quanto nos objetivos de vida. Há alunos que iniciaram no esporte buscando defesa pessoal, enquanto outros passaram a enxergar a possibilidade de seguir carreira no boxe. O jovem Rafael Azevedo Ruiz, de 13 anos, começou a treinar com esse objetivo. Já Gabriel Manea, de 17 anos, afirma que o esporte, principalmente com o apoio de Guilherme, contribuiu para mudanças de comportamento e disciplina ao longo dos anos. "Ele [Guilherme] é como se fosse o meu pai, ele sempre me apoiou, sempre me ajudou quando não tinha condições e ele deixava eu treinar de graça. Sou completamente grato a ele por isso, porque, se não fosse por ele, nada disso seria possível", expôs o aluno. Há ainda quem procure o boxe por questões de saúde física e mental, como melhora no condicionamento e no controle emocional. 'Redenção' A escolha do dia 26 de março para celebrar o boxe no Brasil não é por acaso: a data marca o aniversário de nascimento de Éder Jofre, o "Galinho de Ouro", tricampeão mundial e maior ídolo do esporte no país. Na academia de Guilherme, a memória do ídolo é preservada em um objeto especial: uma luva de boxe autografada pelo próprio Jofre. Guilherme tem uma luva autografada pelo saudoso Eder Jofre, considerado um dos maiores boxeadores do Brasil Enzo Mingroni/g1 Nesta data, o treinador reforça que o esporte pode ir além da prática física e contribuir para diferentes áreas da vida. Para ele, o primeiro passo é ter a oportunidade de conhecer a modalidade e estar disposto a enfrentar o processo de aprendizado e evolução que ela exige. "No Boxe Zona Leste, nós formamos a base, ensinamos o fundamento básico para que eles possam ter oportunidades em outros lugares, que possa remunerar eles, possa dar uma vida, não só no boxe, mas também oportunidade de emprego, transformando o caráter dele, cuidar bastante da saúde, que é o mais importante, que é o motor nosso. Então, o nosso físico e a nossa mente têm que estar bons também", explicou. A mudança, segundo ele, não foi apenas profissional, mas também pessoal. Depois de enfrentar dificuldades ao longo da vida, ele encontrou no esporte um novo caminho, que hoje também serve de base para transformar a realidade de outras pessoas. Por fim, Guilherme resume o papel do boxe em sua vida como "redenção". "O boxe representa a 'redenção' na minha vida. Eu não sabia o que ia fazer mais da minha vida em 2019, aí entrou a pandemia, não tinha renda, não tinha nada. Eu nunca imaginava que a solução toda estava nas minhas mãos, literalmente. Descobri isso de uma maneira muito espontânea, me transformei em outro ser humano, sou bem mais feliz hoje em dia com o que eu faço, os meus horários, os meus dias. Já realizei todos os meus sonhos na minha vida, eu preciso criar novos sonhos, porque eu me sinto um cara realizado. Então, 'redenção' é a palavra que me define, é a única palavra que me define", finalizou Guilherme. Guilherme de Oliveira é professor de boxe na zona leste de Presidente Prudente (SP) Enzo Mingroni/g1 Guilherme de Oliveira já conquistou diversos títulos no boxe Enzo Mingroni/g1 Boxe da Zona Leste é ponto cultural em Presidente Prudente (SP) Enzo Mingroni/g1 Initial plugin text *Colaborou sob supervisão de Stephanie Fonseca Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/03/26/tamo-junto-no-ringue-e-no-asfalto-professor-supera-dificuldades-pessoais-e-encontra-no-boxe-redencao-para-transformar-vidas-no-interior-de-sp.ghtml


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